23 de fev de 2013

CINEMA: Contagem regressiva para a maior premiação de Hollywood


Neste domingo será realizada a entrega do mais cobiçado e famoso prêmio cinematográfico do planeta, o Oscar. Seja ele sinônimo de qualidade máxima ou puro merchandising de Hollywood, o fato é que inúmeras produções interessantes costumam passar pelo crivo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, disputando a estatueta dourada e um lugar garantido na história da Sétima Arte.

Este ano, são nove títulos na categoria principal, que vão desde uma fita independente de um diretor estreante até uma superprodução em 3D, recheada de efeitos visuais, assinada por um vencedor do outra edição.

Como sou um cinéfilo assumido, todo ano faço minha “maratona do Oscar” e procuro ver o máximo de indicados possível antes da cerimônia, e este ano não foi diferente: consegui assistir aos 9 indicados a Melhor Filme, além de outros finalistas, como O Mestre, O Voo, O Amante da Rainha, Skyfall, Prometheus, etc. Como todo bom palpiteiro blogueiro, também faço minhas apostinhas. Vamos a elas:


Depois de ganhar o Globo de Ouro, o Bafta, o Critics Choice e o prêmio máximo dos principais Sindicatos de Hollywood (o Actors Guild, o Directors Guild, o Writers Guild e o Producers Guild — ufa!), Argo já figura como o grande favorito para Melhor Filme. A esta altura, todo mundo já deve estar ciente da polêmica sobre a não indicação de Ben Affleck como Melhor Diretor, o que faz de Argo um caso atípico, uma vez que em 84 edições passadas, somente 3 películas levaram a estatueta principal da noite sem ter uma indicação para seu diretor (a última vez que isso se deu foi com Conduzindo Miss Daisy, há pouco mais de vinte anos).

É um bom filme (apesar do final “clichezento”), mesclando vários gêneros, como drama político, comédia e thriller. Sua estrela da sorte brilha intensamente porque a Academia adora premiar filmes que exaltam Hollywood (que nem fizeram com O Artista, no ano passado). Argo não é exatamente metalinguístico, entretanto revela os bastidores de uma curiosa e bem-sucedida operação da CIA para resgatar americanos durante a Revolução Iraniana e de como a indústria do cinema foi decisiva para que isso acontecesse. Patriotismo + exaltação do cinema + operação bem-sucedida da CIA = Oscar.

A força que Argo passou a ganhar desde sua vitória no Globo de Ouro pode ainda lhe render os prêmios de Melhor Montagem e Roteiro Adaptado. E mais: as categorias de coadjuvante às vezes reservam surpresas. Neste caso, a maior delas seria ver Alan Arkin ser abençoado pelo “fenômeno Argo” e desbancar os favoritos da categoria, Christoph Waltz e Tommy Lee Jones. Veremos.


Quando as primeiras imagens de Lincoln começaram a circular na imprensa em 2012, todos acreditavam piamente na vitória de Spielberg e Daniel Day-Lewis no Oscar deste ano. Pois parece que a profecia irá se concretizar no domingo. Afinal, se no ano passado uma atriz americana levou sua 3ª estatueta dourada por interpretar uma primeira-ministra britânica, por que não um ator britânico levar seu 3º Oscar fazendo um presidente americano? A reencarnação de Lincoln por Day-Lewis recebeu elogios até mesmo dos detratores do filme, e ele pode se tornar o primeiro ator a ganhar o Oscar por um trabalho do mesmo diretor de ET.

O fato é que, mesmo contando com um protagonista de peso, Lincoln não é exatamente uma obra-prima. Com a não indicação de Affleck, Spielberg tem suas chances de ganhar como Melhor Diretor redobradas, porém seus maiores rivais na categoria são Michael Haneke, um autor europeu respeitadíssimo pela crítica, e Ang Lee, um dos mais versáteis cineastas da atualidade que, com As Aventuras de Pi, arrecadou mais de meio bilhão de dólares, a maior bilheteria entre os concorrentes.

Licoln tem, ademais, chance de sair vitorioso na categoria Ator Coadjuvante para Tommy Lee Jones, que está ótimo também. Obs: o prêmio de Roteiro Adaptado foi prejudicado pela recente descoberta de um erro histórico na trama, o qual foi assumido por seu autor, o dramaturgo Tony Kushner.


Não foi apenas a ausência de Ben Affleck que foi sentida. O cultuado Quentin Tarantino também teve de engolir seco quando sua aclamada (e polêmica) homenagem aos bangue-bangue italianos, Django Livre, foi ignorada na categoria Melhor Diretor. Assim como fez em Bastardos Inglórios, Tarantino novamente coloca as vítimas do passado vingando-se de seus algozes numa recriação moderna e estilizada de outra era, com bastante humor negro (sem trocadilhos) e um elenco afiado.

Leonardo DiCaprio, Jamie Foxx e, especialmente, Samuel L. Jackson também foram injustiçados, mas Christoph Waltz, já vencedor por Bastardos Inglórios, voltou com força total e criou um segundo personagem esplêndido pelas mãos de Tarantino. As grandes esperanças de Django Livre no Oscar são justamente o prêmio de Coadjuvante (embora Waltz tenha sido premiado há pouco tempo, o que pode prejudicá-lo um pouco) e Roteiro Original (categoria na qual o cineasta já saiu vitorioso por seu melhor filme, Pulp Fiction).


Para muita gente, foi uma surpresa ainda maior ver a produção franco-austríaca Amor em tantas categorias principais. Modéstia à parte, eu já intuíra em dezembro que isso poderia acontecer, tanto que no meu Facebook já estava declarando minha torcida pela vitória de Emmanuelle Riva na categoria Melhor Atriz três meses atrás.

Michael Haneke, aliás, também merece a distinção como Melhor Diretor e Roteiro Original, mas parece que seguro mesmo é apenas o seu triunfo como Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer maneira, ver a performance magistral e dolorosa de Emmanuelle Riva perder para qualquer uma de suas concorrentes seria o mesmo que ver a grande Fernanda Montenegro aplaudir Gwyneth Paltrow no ano de Shankespeare Apaixonado...


Desde 1981 que um filme não recebia indicações nas 7 categorias principais, quando Reds, de Warren Beatty, competiu como Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Ator, Atriz, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante. Pois O Lado Bom da Vida reprisou a rara façanha e muita gente anda apostando na vitória de Jennifer Lawrence. Mas ela é muito jovem (apenas 22 anos), alguns podem achar que ela ainda não chegou ao seu auge, que ela pode conseguir um papel mais impactante no futuro (repito que continuo torcendo por Emmanuelle Riva).

No fim das contas, O Lado Bom da Vida é apenas uma boa comédia romântica, com toques dramáticos, mas nada extraordinário. Bradley Cooper, ofuscado por Day-Lewis, é quem se destaca mais aqui. Mesmo assim, é admirável ver tantas indicações para uma produção modesta e previsível sobre bipolaridade, um assunto tão em voga hoje.


Além do western, temos o retorno de outro gênero démodé aos Oscars: o musical. Aguardada adaptação da Broadway, Os Miseráveis, dirigida por Tom Hooper (O Discurso do Rei), foi mais que decepcionante. Confesso que eu amo musicais, porém este Miseráveis foi duro de engolir (e de chegar ao fim). É provavelmente o mais chato de todos os concorrentes, prejudicado pelas músicas horrivelmente cantadas pelo elenco e pela longa duração. Uma verdadeira tortura!

O único elogio que posso dar é sobre a atuação excepcional de Anne Hathaway (Hugh Jackman também não faz feio, vai...). Apesar de curta, sua emocionante aparição impressiona, em especial pela transformação física que a atriz sofreu para viver Fantine e pelo modo doloroso com que entoa suas canções. Certamente ela merece levar a estatueta de Atriz Coadjuvante (e Russell Crowe deveria levar a Framboesa de Ouro!). Os Miseráveis deve ainda levar um prêmio pela sonoplastia, pois os musicais costumam ser favoritos nessa categoria, e Tom Hooper falou pra Deus e o mundo que os atores estavam cantando pra valer em todas as cenas, que nada fora previamente gravado, portanto...


Falando em tortura, o mais polêmico dos indicados certamente é A Hora Mais Escura. É também um dos mais injustiçados da safra. Claro que é uma questão meio subjetiva analisar um filme, no entanto, sendo franco com vocês, gostei mais deste do que do oscarizado Guerra ao Terror.

Convém mencionar que a fita desagradou a fatia republicana dos Estados Unidos ao mostrar a prática da tortura durante a longa caçada a Osama Bin Laden (um verdadeiro tabu do governo Bush, tanto que conseguiram adiar o lançamento do filme para depois das eleições americanas; de qualquer maneira, o democrata Barack Obama levou a melhor). Mais do que isso, A Hora mais Escura é uma radiografia intensa e chocante sobre um período-chave na história recente, e revela ainda que uma mulher esteve no comando da mais controversa operação de Inteligência dos últimos anos.

Uma pena que Kathryn Bigelow tenha sido ignorada na categoria Melhor Direção. É provável que a obra fique sem nada no domingo, embora haja quem aposte em Jessica Chastain como Melhor Atriz. Acredito mais numa possível vitória como Melhor Roteiro Original, caso não vá para Tarantino (Mark Boal reescreveu tudo do zero após Osama Bin Laden ser achado e morto no Paquistão), e Melhores Efeitos Sonoros. Merecidíssimos.



E se tivemos filmes subestimados nesta edição, também tivemos alguns superestimados, como é o caso da fita independente Indomável Sonhadora. Depois de virar um hit entre os intelectuais, Indomável Sonhadora foi responsável pelos maiores choques no dia do anúncio das indicações ao Oscar, afinal pouca gente esperava vê-lo disputando os prêmios de Diretor e — muito menos — Atriz! 

Ambientado numa região devastada pelo furacão Katrina, a película acompanha o dia-a-dia de uma garota e seu pai numa miséria que só é compensada pelos devaneios que a pequena Hushpuppy costuma ter a respeito do mundo que a cerca. É um filme feio, deprimente, porém realizado com bastante vigor. Não é péssimo, mas certamente não merecia todo esse oba-oba da Academia. 


Se pensarmos em aventura e fantasia, o que se sai melhor certamente é As Aventuras de Pi, adaptação de um livro que muitos consideravam “infilmável”. Claro que o taiwanês Ang Lee não se deixou levar por esse argumento e aceitou o desafio. O filme é magnífico do começo ao fim, pulverizou um pouco a questão religiosa, mais forte (dizem) no livro de Yann Martel, e acentuou a ação por meio de efeitos visuais incríveis e uma fotografia esplendorosa, que provavelmente serão recompensados neste domingo, tal como a bela e exótica trilha sonora de Mychael Danna.

Existe uma forte campanha para que Lee fature o prêmio de Direção, uma vez que seu trabalho é muito mais notável que os “diálogos filmados” de Spielberg. Este último nem chegou a disputar o Bafta. Haneke tampouco tem tanta força suficiente em Hollywood por ser um autor europeu (lembremos que Fellini, Truffaut, Bergman e Almodóvar já foram indicados ao Oscar e jamais levaram o prêmio de direção, embora merecessem). Lee também é queridinho do Sindicato dos Diretores, já tendo recebido o prêmio duas vezes, por O Tigre e o Dragão e O Segredo de Brokeback Moutain. Ou seja, ele tem grandes chances de levar seu 2º troféu. Fica minha torcida por ele. Mesmo sem levar o troféu de Melhor Filme, é possível que este seja o grande vencedor em quantidade de Oscars.

Fotos: reprodução

6 comentários:

  1. O filme Amor é o meu favorito para o prêmio.
    Grande elenco, grandes cenas.
    Abraços!
    Ótimo FDS!

    Senhor do Século | Beleza para Homens |

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    1. Também diria que Amor é meu favorito, embora não deva levar o Oscar principal, de Melhor Filme. Mas que é a grande obra-prima de 2012, isso é fato. Fico feliz que vc tenha amado esse filme, Dimas.
      Um forte abraço e bom fim de semana.

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  2. Ai, gente... Tá puro amor esse post... adorei o layout!
    Sem mais...
    ;)

    www.matheusfernandes.net

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    1. Ownn, obrigado, Matheus. E olha que de layout bonito vc entende e muito! Um abração, querido, e bom fim de semana.
      =)

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  3. Gosto muito do oscar (menos da narração do jose Wilker e dos comentários daquela velha do fashion police ¬¬, hahaha brincadeira) e esse ano tem bastante coisa boa!

    O (azarão) filme de Ben. Affleck Argo foi o único que não vi, mas mesmo assim acho que o Spielberg leva como melhor diretor ao invés de Ang Lee – embora eu torça pelo Ang (só pra ser do contra hehehe :D)


    Gosto do Tarantino (gente kill bill é fodastico!) mas Django Livre foi o que menos curti.

    Amor foi uma surpresa – em todos os aspectos! Eu torço pra que ele leva alguma coisa.

    Em Lado Bom da Vida, tudo bem não nada de muito extraordinário mas confesso que adorei o filme, e embora não goste muito de Bradley Cooper (não sei prq mas não vou com a cara dele o.õ) achei que ele desenvolveu o papel muito bem.

    Os Miseráveis eu achei lindo – é maçante mas é lindo (alguma coisa ele leva, certeza!)

    A Hora Mais Escura além do titulo bem legal mostrou como é realmente o que é o “governo dos Estados Unidos” – embora eu ache que não leve nada não hehehe

    Indomável Sonhadora não é feio! É deprimente sim até prq não tinha como ser diferente, mas ao mesmo tempo é tocante ... achei super digna a indicação. Torço muito pra esse filme (vai ser um tapa na cara do recalque ¬¬)

    E As Aventuras de Pi, é aquilo mesmo o encanto e a magia que os filmes do gênero devem ser (devo confessar que gosto desse tipo filme – ainda mais em 3D! ^^)


    Detalhe tem que se falar tbm sobre o filme de animação estranho mas legal Frankenweenie do Tim Burton (e tinha como não ser extranho? rs)

    E dos efeitos visuais de O hobbit – convenhamos que é bem melhor que as aventuras de pi ¬¬


    E a horrível “canção original” de Skyfall – gente que musica chata!

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    1. Puxa, Rafael, faltou só vc assistir ao grande vencedor, ‘Argo’ — vc tem que ver agora. Não digo que seja excepcional, mas é um bom filme, bem ao estilo Hollywood, mas não era o melhor dos indicados. Na minha opinião (como dá pra ver pelas estrelinhas que dei lá em cima – rs), ‘Amor’ e ‘A Hora mais Escura’ eram trabalhos superiores. Felizmente não preciso acompanhar os comentários do José Wilker. Ele fala muitas obviedades e até disparates (nunca me esqueço qdo ele criticou o ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ‘Caráter’, em 97, sem nem mesmo ter visto, só porque ganhou do fraquíssimo concorrente brasileiro ‘O que é isso, Companheiro?’).
      Felizmente, a Academia teve juízo de última hora e premiou Ang Lee. Já que esnobaram Ben Affleck, eles tinham de esnobar o Spielberg também. O que achei inoportuno foi premiar a Jennifer Lawrence por um trabalho não tão grandioso assim (ela fez melhor em ‘Inverno da Alma’), sendo que as outras indicadas tiveram um desempenho muito mais desafiador, em especial Emmanuelle Riva. E ainda por cima aplaudiram de pé — eles enlouqueceram de vez! Vamos ver se ela não vai ser a próxima vítima da “Maldição do Oscar”, como Mira Sorvino, Gwyneth Paltrow, Holy Hunter, Faye Dunaway, Tatum O'Neal, Marcia Gay Harden, entre outras que sumiram depois de serem premiadas (a Helen Hunt custou a achar outro papel para ser reconhecida). Isso só pra ficar nas mulheres...
      Dos desenhos, não comentei porque não vi os indicados, tampouco assisti ao Hobbit (tô meio sem paciência pra ver a turma do Senhor dos Anéis de novo, mas verei futuramente). Quanto a Adele, digo que a música nem é horrorosa, mas acho que ao longo de 50 anos houve temas de James Bond muito melhores, não sei por que premiar um justo agora, só porque é a Adele. Mesmo que ela cantasse “Atirei o Pau no Gato”, ela levaria todos os prêmios do mundo. Outro exagero, mas fazer o quê, né?
      Obrigado pelo comentário, Rafael, e boa semana pra vc!
      =)

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