5 de mai de 2013

DICA DE LIVRO: Viver para Contar, de Gabriel García Márquez


A sinopse da contracapa assegura: “Viver Para Contar (ed. Record) é provavelmente o livro mais esperado da década”. É verdade que poucos escritores vivos têm prestígio suficiente para lançar um livro de memórias e transformá-lo num best seller mundial como Gabriel García Márquez. Prova disso são os quase 2 milhões de exemplares vendidos na Europa e Estados Unidos somente no ano de seu lançamento, em 2002.

O livro começa relatando a viagem que Gabo — apelido pelo qual García Márquez atendia na juventude — realizou com a mãe até Aracataca, cidade ao norte da Colômbia, para resolver os trâmites da venda de uma casa. Gabo, então com 22 anos, acredita que aquela viagem, repleta de nostalgia, tenha transformado em definitivo a obra que o faria ganhar, em 1982, o Prêmio Nobel de Literatura.

Para o próprio autor, tudo o que ele havia escrito até aquele episódio estava fadado à obscuridade, pois era “pura invenção retórica sem base em verdade poética”. A passagem pela cidade natal (a casa posta à venda, na verdade, foi onde ele viera ao mundo, no fim da década de 20) o fizera repensar na maneira como compunha suas histórias e personagens. A proposta "inovadora" seria colocar no papel fatos e pessoas que o rodeavam diariamente, tal como aprendera com seu ídolo máximo, o americano William Faulkner.

Em inúmeras passagens do livro, essas fontes de observação se fazem notar. Descobrimos, entre outras coisas, que o bizarro hábito da pequena Rebeca, de Cem Anos de Solidão, de comer terra e cal foi inspirado no comportamento de uma de suas irmãs, Margot. Reparamos também que o namoro quase impossível de seus pais, recontado em uma dúzia de páginas minuciosas, serviu de base para O Amor nos Tempos do Cólera. E por aí vai.

Fica ainda evidente a admiração, além de Faulkner, por James Joyce e Virginia Woolf — suas maiores influências —, “descobertos” por Gabo na época em que trabalhava como repórter para alguns jornais colombianos. Aliás, seu romance de estréia, La Hojarasca (recusado por uma editora quando apresentado pela primeira vez), foi concebido nos “complicados” tempos de jornalismo. Viver Para Contar, inclusive, encerra-se no ano de 1955, às vésperas da publicação de La Hojarasca.

Para quem já teve a oportunidade de visitar ao menos um de seus títulos — como, por exemplo, o sarcástico Crônica de uma Morte Anunciada (meu favorito dele!) — sabe bem que o estilo adotado por García Márquez é o da narrativa direta, coesa, sem delongas. Mesmo assim, trechos de Viver Para Contar chegam a ser sufocantes. Os capítulos extensos e a narração ininterrupta podem assustar. O segmento em que o autor discursa sobre o assassinato do líder esquerdista Jorge Eliecér Gaitán, a 9 de abril de 1948 — dia em que Bogotá transformou-se no palco de um grave conflito entre o Exército e a população civil da Colômbia —, é talvez o mais deslocado e inconveniente da obra. De qualquer modo, o rico conteúdo do volume merece uma conferida, em especial para gosta de História.

É espantoso conceber que um sujeito seja capaz de rememorar tantos detalhes de sua juventude, enquanto muita gente não se lembra sequer do que almoçou na semana passada. O enorme armazenamento de informações do escritor chega a ser impressionante. O mais extraordinário é que ele tenha composto este livro num período extremamente difícil de sua vida. Na época de seu lançamento, o autor dividia seu tempo entre a Cidade do México e Los Angeles, onde se submetia a um tratamento médico desde a descoberta de um câncer linfático, em 1998.

Outro baque viria logo em seguida: numa determinada sequência do livro, García Márquez revela que a morte de sua mãe deu-se precisamente no dia em que colocara o último ponto final da obra (ela já passava dos 90).

Havia uma insinuação de que este seria o 1º tomo de uma trilogia, porém em seguida veio um romance, Memória de minhas putas tristes, e um compêndio de crônicas. Se tudo der certo, Gabo viverá mais um pouco para nos contar o resto de sua história.

2 comentários:

  1. Deu vontade de ler! García Márquez é sempre muito amor <3

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    1. E pra quem curte o autor é tudo de bom ler suas memórias. Parece um romance, mas é tudo real (ou García Márquez faz parecer muito real... rs).
      Obrigado pelo comentário, querido!
      ^.^

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