17 de jun de 2013

DICA DE FILME: Dentro da Casa, de François Ozon


Assim como Brian de Palma, o cineasta francês François Ozon jamais escondeu sua admiração pelo britânico Hitchcock, já tendo realizado alguns suspenses que vulgarmente classificaríamos de “hitchcockianos”, como Sob a Areia e Swimming Pool. Ao contrário do americano, porém, Ozon não cai na armadilha de recriar tramas similares, facilmente identificáveis. Ele apenas dá algumas pistas de onde vieram suas influências mais marcantes, para que o próprio espectador possa se identificar também.

Em Dentro da Casa (2012), a maior menção a Hitchcock é o plano derradeiro, com inúmeras janelas de um prédio sendo analisadas pelos dois atores principais, cada um levantando hipóteses sobre seus habitantes e o que eles estariam fazendo naquele momento. É evidente que se trata de uma alusão a Janela Indiscreta. O roteiro intricado de Dentro da Casa também examina o grau de perversão que as pessoas são capazes de atingir para satisfazer um voyerismo cada vez mais comum.

Um professor de literatura chamado Germaine pede a seus alunos que façam uma redação sobre como têm passado o fim de semana. Praticamente todos entregam narrações vazias e chatas, exceto Claude Gracía, que imediatamente fisga seu mestre ao relatar de forma jocosa os dias que passara com a família de um colega de classe, Rapha Artole. O modo como ele descreve certos pormenores e conduz sua narrativa para um insolente “(continua)”, como se a tarefa de casa não estivesse de todo concluída e, sim, fosse uma espécie de novela em capítulos, intriga Germaine, que enxerga, com certa inveja, o talento de Claude, estimulando-o a continuar sua história, ainda que não aprove totalmente o deboche quase subliminar com que ele fala da família Artole.

Claude, no entanto, diz que não consegue inventar nada, precisa vivenciar as cenas para, em seguida, descrevê-las. Para isso, precisa infiltrar-se no coração da família, uma “família normal (...) de classe média”, como ele mesmo classifica, uma vez que seu passado é descrito como triste, pobre e solitário (na verdade, ao decorrer da história, não sabemos o que é real ou invenção sobre o background de Claude, apesar de uma única cena que o exibe cuidando de seu pai inválido; mas Ozon parece brincar com nossa confiança ao colocar sequências que, a princípio, julgamos reais e, depois, são desmentidas).

Logo, Germaine (e o público) se vê manipulado por seu próprio pupilo. Este sabe que o professor está ávido por saber mais sobre os personagens que ele descreve com fascínio e desprezo na mesma proporção. Qual o destino daquelas pessoas? O que farão elas? Por que foram alvo de toda essa armadilha?

Ozon constrói com maestria um clima de mistério, fazendo com que também fiquemos ávidos para que ele continue frequentando e enganando os Artoles, tudo para que ele possa nos dar em troca pequenas narrativas capitulares desses personagens tão sem-graça e comuns, mas que ele é capaz de torná-los inesquecíveis, tal como Dostoievski ou Flaubert fizeram na disciplina ministrada por Germaine.

É curioso também como Ozon faz menção à invasão chinesa na cultura ocidental: a esposa de Germaine, vivida pela sempre impecável Kristin Scott Thomas, trabalha numa galeria de arte e se prepara para uma mostra de uma artista chinesa, especializada em fotografar o céu. O patriarca dos Artoles se vê diminuído em seu trabalho por conta de um empresário chinês que frequentemente deve buscar no aeroporto e bajular, levando a restaurantes e clubes noturnos. “A população da China”, diz ele, “aumenta em 5 milhões por ano”. Seria essa nação uma fábrica de vidas banais, matéria-prima para que Claude transforme em novas histórias tão tensas e fascinantes? Não é preciso ir muito longe, ele pensa, basta observar uma pessoa na rua ou um prédio em frente ao parque para que ele imediatamente penetre num lar qualquer e faça seu exercício de voyerismo.

Obs: Dentro da Casa permanece em cartaz em algumas cidades brasileiras, seu lançamento em DVD está previsto para breve.

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