5 de out de 2013

DICA DE FILME: Rio Violento, de Elia Kazan


Desolado, um homem explica como membros de sua família não resistiram às enchentes do rio Tennessee e foram levados para a morte junto de casas, animais, árvores e o que mais estivesse no caminho. O desastre natural acende pauta no Congresso, e o presidente Roosevelt, engajado com seu projeto de reerguer o país depois da Grande Depressão de 1929, o New Deal, resolve erguer barragens e uma hidroelétrica na região, anuindo uma proposta do partido republicano. O organismo encarregado é a TVA (Tennessee Valley Authority), que envia agentes ao cenário da hecatombe a fim de comprar as terras que contornam o rio. Tudo correria conforme planejado se não fosse pela resistência de uma senhora cabeça-dura, proprietária de uma ilhota situada no coração do Tennessee. A velha recusa-se a quitar a casa onde passou mais da metade da vida e onde seu falecido esposo encontra-se sepultado. Para tentar convencê-la a vender a terra, Chuck Glover, da TVA, chega à cidadezinha e só pensa em ir embora após concluir sua missão. Munido de incontáveis argumentos e de muita paciência, ele demonstra como as obras do governo podem gerar considerável avanço econômico no vale, melhorando as condições de vida dos habitantes. Entretanto, a sra. Ella Garth é irredutível.

Ambientado no inóspito extremo-sul americano dos anos 30, Rio Violento (1960) é um doloroso álbum de recordações do diretor turco Elia Kazan, um scrapbook no qual pôde grampear cenas que remontam toda uma época conturbada e repleta de cicatrizes profundas. À primeira vista, temos uma história traçada pelo antagonismo do progresso com a tradição, do valor material fazendo contraste com o valor sentimental.

No decorrer da fita, porém, um tema muito mais pungente se sobressai: o racismo. No passado, Kazan já se valera de tópicos semelhantes em filmes como Vidas Amargas (conflito de gerações), Boneca de Carne (localizado no Mississipi, ao sudeste dos Estados Unidos) e A Luz é Para Todos (sobre racismo, no caso, contra judeus). Em todos, Kazan realiza uma espécie de crítica aos costumes americanos, sejam eles causados pelo puritanismo extremo (principalmente em relação à sexualidade) ou por sentimentos herdados ao longo da História (por exemplo, a segregação sulista contra os negros, remanescente desde o fim da escravidão).

O cineasta escancara memorandos de sua vida nos Estados Unidos, na condição de imigrante, algo que também seria evocado muitas vezes por ele através de alguns personagens marcantes — Stanley Kowalski, de Uma Rua Chamada Pecado, se não me engano, veio da Polônia; os negros de O que a Carne Herda descendem dos “imigrantes forçados”, vindos da África; em Terra de um Sonho Distante, seu projeto mais pessoal, temos imigrantes turcos na Grécia, sempre permeados pelo sonho de chegar à América.

Para ele, o que vemos na tela é apenas um fragmento, há muito mais a respeito de uma pessoa ou de um fato do que se poderia presumir. Em vez de apostar as fichas num trabalho épico sobre um assunto exclusivo, ele prefere rodar uma série de pequenas histórias (muitas delas escritas por Tennessee Williams e Arthur Miller, seus autores favoritos) e distribuir elementos-chave que nos obrigam a refletir sobre a mais variada gama de temas e suas causas e conseqüências.

A ilha de Ella Garth personifica o passado, a pedra que faz emperrar as engrenagens da modernidade. Apesar dos apelos e das propostas justas de Chuck, a velha finge que não é com ela, ganhando apoio dos filhos, da neta e da pequena comunidade negra acolhida por ela em suas terras. Assim, a ilha concentra um simulacro de gueto, no qual os marginalizados, mantidos a distância da civilização, lançam olhares de suspeita para as novidades aportadas pela TVA. Entre Ella e Chuck está a jovem Carol, neta da sra. Garth, que logo se transforma na ponte para as negociações — a garota, no início, permanece atada ao pretérito, ao falecido marido, sendo nada menos que uma versão jovem de Ella; aos poucos, a resistência de Carol cede espaço à vontade de variar, de ser puxada por Chuck para um mundo radicalmente alheio àquele em que sempre estivera.

Lançado pela Classicline em setembro,
o DVD custa, em média, R$ 40
O romance que emerge entre ela e Chuck deflagra esse progressivo sentimento de mudança, e é com esse gancho que Kazan resolve dedilhar as facilidades do óbvio e do melodrama, sem, no entanto, assumir uma postura piegas. Mestre na arte de dirigir atores (sua experiência prévia no teatro se faz sentir em cada trabalho), ele coloca lado a lado Montgomery Clift, Lee Remick e Jo Van Fleet nos papéis principais, oferecendo-lhes a chance de brilhar mais do que nunca.

Já se falou muito acerca da performance inspirada de Jo Van Fleet, que, aos 46 anos de idade e envelhecida com maquiagem especial, arrasa na pele da octogenária Ella Garth, todavia vale sublinhar o espantoso envolvimento de Monty Clift e Lee Remick com esse projeto. Em Rio Violento, Clift, que andava tendo problemas com o alcoolismo, encontra um personagem definitivo e marcante. Lee Remick, grande atriz, hoje esquecida, interioriza as emoções de sua Carol de tal forma que com um simples gesto consegue transpassar as dúvidas e a angústia que tanto afligem sua consciência; os luminosos olhos azuis de Lee perdem-se no infinito, parecem querer expressar vontades indizíveis, estão desapontados com a atualidade e temerosos quanto ao futuro.

O elenco é focalizado pelas lentes do diretor de fotografia Ellsworth Fredericks, que usa e abusa da profundidade de campo, dando a impressão de mesclar os atores com a paisagem rural, pincelada por cores ocres e acinzentadas e castigadas pelo clima ora brilhante, ora sombrio e chuvoso do Tennessee.

O drama sucedido em Nova Orleans há quase dez anos, quando o furacão Katrina arrasou a cidade, rompendo diques de segurança no rio Mississipi e provocando enchentes devastadoras, ratifica o valor de contemporaneidade de Rio Violento. A maior tragédia natural sofrida nos Estados Unidos serviu para denunciar ao mundo os altos índices de pobreza na população majoritariamente negra da Luisiana, e trouxe de volta o fantasma da sra. Ella Garth com toda sua desconfiança quanto aos projetos de crescimento do governo.

O filme, de fato, não envelheceu nada, ao contrário: as plateias de hoje talvez possam apreciá-lo com mais sensatez que os espectadores originais. Devemos lembrar que ele foi exibido pela primeira vez num contexto social bem diferente de hoje, quando os conflitos raciais ganhavam um clímax de extrema violência. E também há o fator político, que sofreu transformações radicais na segunda metade do século 20. Servindo-se de um acontecimento passado, Elia Kazan ganha, neste caso, ares de profeta, faz de sua obra um marco artístico hollywoodiano (ele possui um currículo singular, impecável, com cara de europeu). A boa notícia que fica é que a Classicline acaba de lançar Rio Violento em DVD no Brasil (em média R$ 40). Vale a pena mergulhar nesse "tesouro perdido" de Kazan.

2 comentários:

  1. Menino excelente dica de filme. Estou nessa pegada mais cult do cinema e tenho encontrado obras fantásticas.
    Abraços!

    www.senhordoseculo.com

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    1. Esse é bem cult, Dimas, e é de um dos maiores diretores que passaram por Hollywood.
      Obrigado pela visita!
      =)

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