25 de jan de 2013

CINEMA: Lincoln, de Steven Spielberg


Estreia nesta sexta-feira Lincoln, o aclamado filme de Steven Spielberg que promete ser a cinebiografia definitiva do 18º presidente dos Estados Unidos. Na realidade, não é bem uma biografia, mas sim o relato fracionado de um período difícil que aquele país enfrentou em meados do século 19 (a Guerra da Secessão) e que, por acaso, foi abreviado pelo homem que se transformou numa lenda, poucos meses antes de ser assassinado.

Na primeira cena, vemos os escravos, transformados em soldados pelas tropas do Sul, tendo de lutar contra os abolicionistas do Norte (!), conversando com o próprio presidente. Ali está a pista de por que esse filme recebeu tanto destaque na mídia americana: enquanto os negros aparecem clamando por igualdade e sonhando com, um dia, ter a liberdade de votar e até mesmo de participar do contingente político de seu país, logo lembramos que os Estados Unidos reelegeram recentemente Barack Obama...

Ao contrário do que o filme talvez faça pensar, Lincoln não aboliu a escravidão por ser uma alma benevolente, defensor irredutível da igualdade racial. Isso fica por conta da mitologia. Biografias recentes afirmam que a 13ª emenda constitucional arquitetada por ele com a finalidade de encerrar o flagelo dos negros foi, na verdade, apenas para pôr fim à Guerra Civil de uma vez por todas. Afinal, esse conflito estava baseado justamente na questão da escravidão: o Sul, de economia agrícola, precisava do trabalho braçal gratuito dos negros; o industrializado Norte, por sua vez, tinha interesses comerciais e, com os afrodescendentes trabalhando e recebendo um salário, por mais miserável que fosse, haveria uma bela injeção de dinheiro. Os negros se sujeitariam a trabalhar por qualquer salário (afinal, não havia sindicatos, direitos trabalhistas, nem nada) e os brancos não teriam mais que dar-lhes de comer e abrigo. Ou seja, o fim de escravidão seria apenas uma farsa por décadas.

Lincoln, se fosse mesmo essa alma caridosa que todos pensam, poderia muito bem ter arriscado uma tentativa de pôr o basta na questão logo em seu primeiro mandato, quando o conflito começou. Por que a ideia só veria a luz do dia após milhares de jovens morrerem ou sofrerem toda sorte de mutilações por 4 anos? Talvez para não arriscar sua reeleição... tudo é possível.

Independente desses pormenores, a imagem de Lincoln é tão respeitada nos Estados Unidos que Daniel Day Lewis, numa interpretação magistral, quase sempre aparece à meia-luz ou nas sombras, como um monumento a ser estudado. O trabalho de maquiagem está impecável, diga-se de passagem, e Day Lewis fica idêntico àquelas fotografias históricas que conhecemos na escola, em especial quando está de lado (não é por acaso que o pôster do filme o coloca num close de perfil). No entanto, indo contra a maré, devo dizer que não gostei de Sally Field no papel da primeira-dama: está teatral demais na maioria das cenas, sempre um tom acima de seus colegas de elenco, exceto num ou noutro momento (na vida real, Mary Lincoln acabou num sanatório, é provável que esse dado tenha servido de inspiração para Sally na hora de compor a personagem).

Em geral, apenas um bom filme, sustentado pelo elenco primoroso, mas longe de ser especial ou memorável. Ainda acho que Spielberg perdeu a mão depois de ter feito Encurralado e Tubarão, seus melhores trabalhos, e caído no mainstream, mostrando as histórias do jeito que as plateias querem ver, não como deveriam.

7 comentários:

  1. Já faz um bom tempo que Steven Spielberg vem sendo ofuscado né?
    Abraços!

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    1. Spielberg não é um grande diretor, é um contador de histórias populares. E não vejo nada dele que seja, digamos, bom desde 'Prenda-me Se For Capaz'. Este 'Lincoln' é apenas razoável. Assim como 'A Dama de Ferro' no ano passado, ele se sustenta apenas no ator principal.
      Abração, Dimas.

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  2. Tenho que ver também! Embora não esteja no TOP da minha lista!

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    1. Vá sem muita sede ao pote - hehe. Mas compensa por causa do Daniel Day-Lewis.
      Abraços e boa semana!

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  3. Vou dar uma olhada, embora não curta muito filmes assim!

    Abraço.

    http://garotoidentidade.com

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  4. Pierre:

    Sempre bom ter a oportunidade de apreciar um bom filme, um bom elenco e grandes interpretações, não é mesmo?

    Abraços e linda semana.

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    1. Neste caso, Edilson, é apenas por causa da interpretação do sempre ótimo Day-Lewis, porque se dependesse da direção de Spielberg... ele continua kitsch como em 'Cavalo de Guerra', um pouco mais contido apenas.
      Abraços e boa semana pra vc tbm.

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