8 de mar de 2013

DICA DE FILME: Laurence Anyways, de Xavier Dolan

 
Imagine-se como um estudante ginasial. Um belo dia, seu professor de literatura surge para dar aula vestido de mulher, com direito a salto-alto, batom, bolsa de mão e brinco de um lado só. Parece hilário, mas não é brincadeira: o cara deseja mudar de sexo. Isso é o que vemos, em meio a tantas outras excêntricas e memoráveis sequências, no último filme do jovem diretor canadense Xavier Dolan, Laurence Anyways.

Não me lembro de muitos filmes que tenham abordado o tema da transexualidade de forma tão interessante. Rapidamente, me vêm à mente Transamérica, com o desempenho formidável de Felicity Huffman, e A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar. Aliás, Almodóvar é uma influência gritante para a estética kitsch e oitentista de Dolan. Este não faz muito esforço para cutucar todos os nossos sentidos, uma vez que, além de cineasta, ele também é figurinista, DJ, cenógrafo e roteirista. Os cenários, figurinos e penteados breguérrimos e a trilha sonora marcante — recheada de clássicos da New Wave e do Techno-Pop dos anos 80/90, como Visage, Duran Duran e Depeche Mode — conseguem extrair no mínimo um sorriso dos almodovarianos de carteirinha.

Laurence Anyways abre com uma enxurrada de olhares de surpresa, repúdio, medo, desconfiança. São os mesmos olhares que o personagem-título enfrenta num dos ambientes mais preconceituosos que se pode conceber, o acadêmico. Aliás, só o impensável ato de pisar travestido na escola onde leciona, antes mesmo de qualquer tratamento médico ou psicológico, faz do personagem um anarquista, alguém que busca o choque sem ponderar qualquer consequência. Logo, surgem os problemas inevitáveis a tal objetivo (a troca de sexo), tais como a perda do emprego e a rejeição das pessoas mais próximas.

Após apanhar literal e metaforicamente da vida, Laurence Alia nota que não é o único a se encontrar em situação semelhante. A princípio, é na mãe e na namorada (de apelido masculino) que ele busca forças; mais tarde, quando elas passam a fraquejar ou dar sinais de esgotamento, é nos demais marginalizados que o alívio toma forma. Dolan não disfarça que gosta de brincar com a ambiguidade e a caricatura. Afinal, até que se transforme numa mulher de verdade, o protagonista nada mais é do que um travesti, talvez o ser mais recriminado da sociedade. Mas ele não é gay, é simplesmente um homem que quer virar uma mulher...

Antes de assistir, vi que Laurence Anyways, exibido na Mostra de São Paulo em outubro passado, durava quase 3 horas. Um exagero, pensei, pois o tema não parecia ser pra tanto. Mas, ao acompanhar 10 anos da vida de Laurence Alia, em meio a encontros e desencontros com sua namorada, o tempo, de fato, parece voar. Uma pessoa, afinal, não muda de sexo de uma hora pra outra, é um processo lento, tanto físico quanto psicológico.

Vale mencionar a excelente performance da atriz Suzanne Clément, como a namorada do protagonista. Muitas vezes, ela rouba a cena (sua explosão de histeria num café, por exemplo, é bem mais memorável que a da vencedora do Oscar deste ano, Jennifer Lawrence, numa tomada similar de O Lado Bom da Vida).

Que filme diferente, ousado e, sobretudo, muito bem-narrado! Já entrou na minha lista de melhores de 2012, ao lado de Amor, de Michael Haneke, Uma Vida Simples, de Ann Hui, e Tabu, de Miguel Gomes.

2 comentários:

  1. mesmo respeitando a individualidade e originalidade de cada um acho que (talvez) não gostaria desse filme ... os temas como crossdressing, transsexualismo não me agrada¬¬

    (morro de medo de drag queen - sério o.o"

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    Respostas
    1. hahhaha
      Eu tenho medo de palhaços (confesso). Mas este aqui é um filme que agrada aos fãs de Almodóvar fácil, fácil. Tenta dar uma chance, vai...
      ;o)
      Abraços, querido, e boa semana.

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