17 de mai de 2013

DICA DE FILME: Orgulho e Preconceito, de Joe Wright


Essa dica de filme é meio "desatualizada", mas sei que muita gente ainda não viu o título em questão, mas certamente já ouviu falar de dois trabalhos do mesmo cineasta, Joe Wright, Desejo e Reparação e Anna Karenina, todos protagonizados por sua musa, Keira Knightley. Fica aqui, portanto, a sugestão: assista! Vocês podem notar que o texto ficou mais comprido que a média dos posts anteriores, mas faço questão que leiam - hehe.

Em Orgulho e Preconceito, admiramos todo o esplendor e a essência do período setecentista, que nem nas latinhas de bombons finos e cartões postais vendidos em lojas de souvenires da Europa. Damas e cavalheiros, trajados com metros e mais metros de tecido, babados e fitas, cortejando-se, fazendo piqueniques em paisagens bucólicas, ou simplesmente posando com aquela altivez característica da época. A escritora inglesa Jane Austen soube fisgar como poucos o espírito dos tempos em que viveu em obras como Razão e Sensibilidade e Emma, todos realizados sob a delicada ótica feminina com a qual faria gigantesco sucesso entre donas-de-casa da Belle Époque, transformando-se na mulher mais lida até o início do século 20 (100 anos antes de Harry Potter e 50 Tons de Cinza). Para complementar as clássicas ilustrações referidas, Orgulho e Preconceito imprime diálogos, conjunturas, insere a sociedade pré-vitoriana em rotinas, traça uma cronologia daquilo que deveríamos saber a respeito daquelas damas e cavalheiros. Revelam-se os maneirismos, as falas marcadas pela prosódia, a inocência dos atos, etc.

Orgulho e Preconceito já havia sido levado ao cinema hollywoodiano, em 1940, e houve também uma minissérie para a tevê britânica, além de uma adaptação indiana. Nas mãos do então estreante Joe Wright, o romance retornou às telas com ainda mais graça e leveza. Misturando drama e comédia, Wright fez questão de trabalhar num tom zombeteiro — e nem por isso menos humano — a obsessão da sra. Bennet (Brenda Blethyn) em casar suas cinco filhas. Basicamente, as moças nasciam para isso mesmo: arranjar um marido e procriar. Vez por outra, surgia alguma feminista, um tanto deslocada, é verdade, que tinha por objetivo revolucionar o tal código. Neste caso, a segunda filha do casal Bennet, Lizzie (Keira Knightley), é quem tenta impor suas vontades, enfrentar a mãe e escolher o homem com quem vai se casar. Quando a irmã mais velha, Jane (Rosamund Pike), conhece o jovem sr. Bingley (Simon Woods), Lizzie é apresentada ao arrogante sr. Darcy (Matthew Macfadyen), por quem não se afeiçoa à primeira vista, apesar de achá-lo atraente.

Como estratégia, Orgulho e Preconceito traz de volta a estilização e o requinte de um tema de aparência ultrapassada, antiquada, para colocar em xeque os hábitos comunitários da atualidade. Nota-se que as garotas de hoje não são tão diferentes assim, elas continuam sonhando com matrimônio, e as mães continuam sonhando com genros abastados... O disfarce é conveniente — e que disfarce! Da direção de arte à fotografia, o filme é de pura beleza pictórica, como as latas de bombons mencionadas acima ganhassem vida perante nossos olhos. A impressão obtida implica no deslumbramento do espectador com aquilo que se vê, envolvendo-o emocionalmente com os personagens, para, em seguida, fazê-lo racionalizar o enredo.

Wright — e Jane Austen, por que não? — encontram em Keira Knightley a intérprete ideal para dar vida à tempestiva Lizzie. A relação dela com Darcy esquenta e esfria conforme alguns desentendimentos começam a se sobrepor, o que resulta numa tentativa frustrada de contenção de sentimentos. Lizzie jamais esconde de nós o aborrecimento e, sobretudo, a decepção por Darcy ser aquilo que ela acredita ser. Knightley traduz uma maturidade pouco comum para uma adolescente (sobretudo se comparada às de hoje, que não sabem nada de nada exceto por assuntos ligados a "sedução", e digo isso sem querer generalizar), mas conserva a meiguice de toda donzela. Ficamos apenas na torcida para que os nós da trama se desfaçam e que o casal encontre conforto na futura união. Torcemos ainda para que obstáculos tipicamente “novelísticos”, como as divisões de classe, sejam logo minados pela roteirista Deborah Moggach (sabe-se que a atriz Emma Thompson, premiada com um Oscar por seu script de Razão e Sensibilidade, em 1995, ajudou Moggach a reescrever alguns trechos de Orgulho e Preconceito).

A desenvoltura com que opera a câmera e dispõe os atores em cada tomada fazia de Joe Wright um grande esteta em fase embrionária (vimos isso melhor desenvolvido em Desejo e Reparação no célebre trecho de guerra na praia). As cenas são construídas com uma “simplicidade complexa” de cair o queixo, como se o cineasta estivesse à vontade para juntar um enorme quebra-cabeça, sem nunca tê-lo feito, mas já conhecendo de cor a imagem a ser montada. As seqüências ambientadas na mansão dos irmãos Bingley e nos salões de festa, por exemplo, são convidativas, queremos observar mais de perto, participar daquilo como se tudo não passasse de uma brincadeira para adultos, uma fantasia de outro mundo. Naturalmente, a Inglaterra não era só povoada por burgueses e aristocratas, mas lembre-se de que Jane Austen tem o dom de transformar os séculos 18 e 19 num mundo cor-de-rosa, cheio de frufrus, acochegante, como se o maior problema das pessoas fosse mesmo conseguir um marido milionário para as filhas e desfrutar pensões anuais. Primeiro, Orgulho e Preconceito foi concebido como uma sátira; concluindo, temos uma singela história de amor, com final feliz e tudo mais, nenhuma pretensão. Só falta um lacinho florido em torno do DVD — e uma latinha de bombons finos para acompanhar a sessão.

7 comentários:

  1. Já esbarrei com esse filme algumas vezes, mas de alguma forma ele não me convenceu.
    Vou dar uma segunda chance hehe
    Abraços e ótimo final de semana

    senhordoseculo.com

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    1. Pode conferir, Dimas. Aliás, pode tbm conferir o Desejo e Reparação, do mesmo diretor, que é excelente. Uma boa pedido pro fds, hein? rs
      Abração, querido, e boa semana.

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  2. o filme realmente é bom, adoro filmes de época ... o livro tbm é ótimo li depois do filme (comprei num sebo baratinho, baratinho hehehe )

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    1. O livro ainda não li, mas de fato esses clássicos estão bem difundidos em sebos a preços irrisórios - hehe. Fico feliz que tenha aprovado a dica, Rafael, eu tbm amo filmes de época!
      \o/
      Abração, querido, e tenha uma excelente semana.

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  3. Oi Pierre... quadno vc fez essa postagem eu acabei me esquecendo de comentar, apesar de ter pensado em fazer isso.
    Mas, ADORO esse filme, Já o vi inúmeras vezes. E ano passado descobri por acaso..que ele tem um final alternativo, voce já viu??? Quer dizer, acaba tão bem quando o que mostra na fita normal... mas com "mais" do amor deles.
    Simplesmente lindo!
    Beijos

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    1. Oi, Margot!! Quanto tempo!! Então, eu não conheço o final alternativo, até pq conheci esse filme na tevê por assinatura há bastante tempo, tinha até gravado em VHS na época, revi uma ou duas vezes e até comparei com a versão de 1940, com a Greer Garson e Laurence Olivier (e mesmo adorando clássicos, preferi essa versão nova). Qdo vi, senti que a Keira Knightley tinha potencial pra virar uma ótima atriz q e o diretor Joe Wright ainda faria coisa mto boa no futuro. Não deu outra, os 2 trabalharam juntos novamente e um desses projetos foi o magnífico Desejo e Reparação (se vc ñ viu ainda, veja!).
      Obrigado pela visita, gata, e um bom restinho de semana pra vc!
      Bjs

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    2. https://www.youtube.com/watch?v=P23KQPYXeaA

      Caso vc queira ver Pierre...tai o complemento do final que é mostrado na TV.
      Se bem que o livro termina com o final que é mostrado no filme.
      De qq maneira ficou legal.
      Beijos

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