22 de ago de 2013

DICA DE FILME: Violência Gratuita, de Michael Haneke

Representante máximo do cinema-choque europeu, ao lado do francês Irreversível, Violência Gratuita despontou na carreira do austríaco Michael Haneke como o filhinho querido, aquele que enche o papai de orgulho por seu desempenho ímpar de conquistas e estarrecimento por onde quer que passe. Isso antes de A Professora de Piano, Caché, A Fita Branca e Amor, o que demonstra um crescente na sua maestria de narrar uma história.

Surgido da necessidade em expor uma sociedade enfraquecida pela delinquência juvenil, o filme rompe a tradição de escalar indivíduos corrompidos por uma infância difícil e materialmente desprovida como os monstros sanguinários, sem nada a perder, que tanto assombram a classe média, confinada em habitações luxuosas e confortáveis, fingindo que nada está acontecendo e ficando atônita com o sensacionalismo dos telejornais. Aqui, o horror vem da própria high society, em que jovens, na impressão de terem tudo que almejam, saem em busca de novos métodos de passatempo, o que é rapidamente encontrado nos mais variados atos ilícitos, como o consumo de drogas, brigas de rua, estupros, pequenos assaltos e por aí vai. Uma coisa leva a outra. Daí brotam algumas comparações óbvias com a primeira metade do cult Laranja Mecânica, não apenas tangentes ao problema da violência entre os jovens que roubam, espancam e matam por prazer, mas também em relação aos objetos narrativos que Haneke ordena ao longo de quase 100 minutos de puro sadismo: o uniforme branco dos agressores, a música clássica na abertura, o taco de golfe como arma, etc.

Uma família vai passar alguns dias em sua bela residência campestre e logo vira refém e é torturada por dois estudantes que gozam de férias na região. O ponto de partida parece suceder as fitas de horror B que simbolizaram as décadas de 70 e 80, quando o gênero era praticado, então, como meio de protesto político, crítica aos costumes contemporâneos, tudo numa época sacudida, em que a violência, de fato, começou a ser banalizada e os cineastas independentes — em especial nos Estados Unidos e na Itália — usavam e abusavam de cenas grotescas, verdadeiros banquetes de sangue. Mas, tão logo os vilões de Haneke começam a agir, transparecendo poses educadas e vocabulário culto, percebe-se que o filme em questão transcende o gênero, invadindo a tela com o mais puro realismo dramático da escola bávara.

O terror alimenta maior intimidade com a fantasia, o que não é o caso. Violência Gratuita não exagera em nada, porém é no mínimo insólito assistir a um casal inocente e a seu filho serem atacados por dois rapazes abastados em vez de dois brutamontes sem dentes ou algum mascarado maltrapilho (lembrou de Amargo Pesadelo?). Alguns podem rememorar Festim Diabólico, de Hitchcock, mas ali a bestialidade não era explícita, a sequência de assassinato reduzia-se a poucos segundos, inserida logo no início, tendo todo o resto da trama voltada para as tentativas de acobertamento do crime. Em ambos, porém, encontramos vilões refinados, bonitos e de aparência distinta, ponto chave para expandir o caráter chocante da composição.

A cada instante, o nível da agressão na película aumenta, oscilando entre o físico e o psicológico, testando os nervos das três vítimas da história. A impotência de um pai torna-se pretexto para o diretor utilizar o velho clichê da mulher que desafia o monstro (de onde surgiu a ideia de que os filmes de terror são todos misóginos, uma vez que a maioria deles acaba com a mulher derrotando o vilão?), mas a mãe, embora enfrente seus temores com estoicismo, ignora por completo as surpresas do script, superousado se comparado às produções americanas, que costumam poupar crianças e animais, convergindo quase sempre a um happy end. De qualquer modo, Haneke deixa claro mais de uma vez que, junto de seu alerta sobre a crise da nova geração, tudo não passa de um filme. Os torturadores às vezes olham diretamente para a câmera e “conversam” com o espectador, e existe até mesmo um ambicioso recurso estilístico que faz a fita voltar e corrigir um erro na vigilância dos perigosos antagonistas.

Assim como faria depois em Cachè, Haneke promove um exercício de confiança mútua entre o casal protagonista ante a ameaça, seja ela explícita ou misteriosa, testando os valores matrimoniais numa situação de perigo. Em suma: no lugar de cumplicidade, as fitas de vídeo que perturbam o casal de Caché acendem atritos e revelam a falta de solidez na relação marido-mulher; em Violência Gratuita, a tortura faz diminuir Georg, o pai, quase por completo, sendo ele incapaz de reagir, inclusive quando o bandido ordena que sua esposa tire a roupa. É a humilhação na sua forma mais integral, como se o público apontasse o dedo para o sujeito e o chamasse de “covarde” a cada cinco minutos. Mas o que mais ele poderia fazer? Reagir e brincar com a sorte? Sim, afinal — nós sabemos —, muitos pais arriscariam a própria vida para salvar sua família, confirmando, portanto, a debilidade de Georg como protagonista e transferindo a Anna o papel de autêntica heroína da história.

É irônico notar que todo esse esforço para combater o mal parte de um problema tão idiota, uma vez que os dois bandidos estão ali sem nenhum motivo aparente, daí a gratuidade insinuada no título brasileiro. O recado é perigoso, mas inegável. Ficar aprisionado e esperar o fim do pesadelo pode ser a pior alternativa, principalmente quando não notamos que o problema também tende a nascer em nossos lares. Não há garantia de que um jovem de futuro promissor não possa de repente se tornar um assassino frio e cínico; os psicopatas não demonstram sintomas.

Além disso, o filme está aí para reforçar a ideia de que não devemos confiar em estranhos, até os mais bem-apessoados. Estamos numa viagem sem volta, a desconfiança é questão de sobrevivência. E vale dizer que o próprio Haneke — gabando-se da qualidade de auteur, e não de um mero diretor — incumbiu-se de reaproveitar o projeto em Hollywood (o remake foi encabeçado por ninguém menos que Naomi Watts), unicamente para assegurar-se de que outro colega não perdesse o enfoque niilista do script original. Esse é um jeito fácil de vender seu produto ao maior número de espectadores possível sem arruinar sua postura autoral; a violência, para ele, é gratuita, mas a sociedade não deixa de pagar para vê-la.

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