8 de abr de 2013

DICA DE LIVRO: O Olho Mais Azul, de Toni Morrison

Para os visitantes cults do BAZAR, mais uma boa dica de leitura. Livro de estreia da grande Toni Morrison e declaradamente a obra favorita de Oprah Winfrey, O Olho mais Azul (Companhia das Letras) é sobre uma menina negra chamada Pecola, de 9 anos, que alimenta raiva e frustração dentro de si por conta de todo o racismo que a rodeia. Ela sabe que o padrão de beleza de seu tempo (a história é ambientada na primeira metade do século 20, durante a Grande Depressão) é a estrela mirim Shirley Temple. Pecola tem a curiosa mania de mutilar as bonecas brancas e loiras que ganha de Natal.

O livro é, sobretudo, um estudo psicológico e histórico de tudo o que os negros americanos enfrentaram ao longo dos tempos, em especial antes da lei de igualdade civil, na década de 60. É possivelmente a obra mais “realista” de Morrison, que também assinou o já clássico Amada (pelo qual levou um Pulitzer), narrada parcialmente em primeira pessoa por uma das amigas de Pecola, Claudia McTeer, alter-ego da escritora e testemunha do cotidiano de sua vizinhança, um bairro transformado em gueto negro.

Na segunda metade do livro, a narração é em terceira pessoa e faz um flashback, situando-nos a respeito da vida e criação dos pais de Pecola, não para justificar o tratamento que eles dão à filha, porém explicá-los melhor. Suas origens não foram muito diferentes da de tantos outros negros daquele período. O apelo emocional e ligeiramente “surrealista” da trama fica a cargo de Pecola e de sua obsessão em ter olhos azuis.

Uma coisa que minha mãe costuma falar e que nunca me esqueço é que, nos anos 70, as brasileiras suspiravam pelo ator Jardel Filho. Claro que não tenho idade para me lembrar dele, mas ao ver fotografias antigas de Jardel, sempre falava: “Mas ele é tão feio!”. Mamãe diz que as amigas contestavam: “Mas ele tem olhos azuis...” Ou seja, a cor dos olhos influenciava (e muito) os padrões de beleza da época. Aliás, até hoje muita gente pensa assim, não é mesmo?

Pecola, no livro de Morrison, é considerada muito feia. Essa feiura, contudo, é sugerida diversas vezes como uma espécie de maldição racial, uma cruz que ela carrega desde sua genealogia. Ela reza todas as noites para que Deus lhe altere a cor dos olhos, para que fiquem idênticos aos de uma colega de escola que é venerada pelas demais meninas. Pecola, cujo nome foi inspirado no filme Imitação da Vida (1934) — no qual uma garota, nascida branca, rejeita a própria mãe, negra e empregada de uma bem-sucedida empresária —, apela à magia e suplica a um homem que se diz mago ou curandeiro para que seu sonho se torne realidade. Tudo isso em meio à descoberta da sexualidade e do lado mais cruel dos homens.

O Olho Mais Azul, nesse ponto de vista, é um ancestral de Preciosa, que vocês certamente conhecem por causa do filme. E digo mais: é a versão feminista de O Filho Nativo, de Richard Wright, outro livro impressionante sobre racismo (e um de meus favoritos). Pecola e os demais personagens do livro não são apenas vítimas de sua condição física, são também do meio onde vivem (a indiferença dos médicos, o alcoolismo destroçando casamentos cada vez mais precoces, a humilhação sofrida no serviço, etc.). Morrison, claro, opta por um caminho fácil de apontar os culpados e listar toda sorte de horror e abusos que seus antepassados (e a própria autora, acredito eu) devem ter sofrido, o jeito maniqueísta quase sempre presente nas obras que abordam o assunto.

2 comentários:

  1. Entrou para minha lista de favoritos.
    Um livro sem dúvidas, fascinante!
    Abraços!

    Senhor do Século | Beleza para homens

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    1. Vc já leu, Dimas? É realmente um livro mto bom, de uma escritora fantástica.
      Abração, querido.

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