22 de mai de 2013

CINEMA: Meus 10 ganhadores da Palma de Ouro favoritos (1ª parte)


O Festival de Cannes está acontecendo atualmente na Riviera Francesa, como não resisto falar de cinema, uma de minhas especialidades (rs), resolvi fazer uma listinha com meus 10 vencedores da Palma de Ouro prediletos. Quem me conhece sabe que adoro uma listinha – rs – e ainda mais se tratando de filmes.

Meu critério, claro, é pessoal, mas adianto que estou excluindo filmes anteriores a 1955, quando o Festival outorgava o chamado “Grande Prêmio” aos melhores títulos exibidos, e não a Palm d’Or, como sua maior distinção é conhecida há quase seis décadas. Também não quis colocar um filme à frente de outro, como se um fosse melhor que outro, então a ordem é cronológica, do mais antigo ao mais recente.

Como cinéfilo doente, posso adiantar que já assisti à grande maioria dos vencedores do Festival, inclusive algumas raridades, como A Bossa da Conquista, O Espantalho e O Assalariado (nos bons tempos do Telecine Classic... saudades), filmes que nem acho lá essas coisas, contudo, por “obrigação”, acabei vendo, por isso podem ter certeza de que são 10 escolhas conscientes.
Vamos lá?



Como deixar esta joia de Fellini de fora, sendo inclusive o 1º filme a levar a Palma de Ouro por unanimidade. Quando se pensa em A Doce Vida (1960), vem direto à nossa mente Anita Ekberg na Fonte de Trevi, erguendo os braços sob a água, lânguida e sensual, aos olhos de Mastroianni, certo? Mas a história não é apenas sobre uma beldade do cinema fazendo suas excentricidades na capital italiana perante um jornalista de fofocas (isso é apenas um trechinho de nada numa fita monumental). Além de ser o primeiro ensaio oficial de Fellini ao surrealismo, rompendo com o neo-realismo de seus trabalhos anteriores, A Doce Vida é também uma radiografia completa do tédio nas relações e da falta de controle da classe média alta italiana, nos áureos tempos de reconstrução pós-2ª Guerra e na atmosfera de incertezas da Guerra Fria. Naquele mesmo ano, Antonioni tentou abordar o mesmo assunto com o belo e enigmático A Aventura (às vezes, penso que este é ainda melhor, embora tenha sido vaiado na ocasião), mas quem levou o prêmio (e até foi indicado ao Oscar) foi seu conterrâneo. Fellini — não tem jeito — sabia transformar qualquer tema num circo, porém um circo de alto padrão.


O Brasil não tem tradição de produzir grandes obras cinematográficas, sempre digo isso. Por mais que eu me esforce, vendo os principais títulos da filmografia tupiniquim, raramente encontro algo que me entusiasme. Enquanto o Ministério da Cultura inscrever bobagens como a biografia de Lula e 2 Filhos de Francisco para disputar uma indicação ao Oscar, jamais veremos a estatueta dourada de perto. O Pagador de Promessas (1962) é uma exceção: pouco visto aqui, mas cultuado lá fora, foi um marco do cinema nacional e já denunciava uma certa intolerância religiosa ao narrar a história de um padre que impede o personagem-título de entrar na igreja para agradecer uma graça atendida, depois que seu burro escapa da morte. Acusado de paganismo por causa do motivo da promessa, o jovem permanece em frente à igreja e se desespera com o medo de ser punido pelos santos caso não cumpra sua missão até o fim. Um conto atemporal, sob a excelente direção de Anselmo Duarte, clássico instantâneo para ser estudado pelos demais cineastas e roteiristas brasileiros. Aprendam com o passado, gente!


O mais interessante sobre Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy, é que se trata de um musical, só que aparentemente não traz nenhuma canção! Não no sentido usual do termo, é óbvio. O que se vê (e se escuta) é uma extraordinária paleta de cores esparramada na tela, acompanhada por diálogos cantarolados. Sim, o filme é integralmente cantarolado, porém há pouquíssimos refrões ou melodias repetitivos: um simples “bom-dia” ou “estou com fome” são convertidos em árias, seguidos por arranjos do compositor Michel Legrand. Encanta ainda o visual multicromático da fita, com interiores e figurinos de tons chapados e desenhos geométricos, tudo meio estilizado, meio retrô (ou seja, bem "a cara dos anos 60").

Cheia de referências aos musicais clássicos de Hollywood, como Cantando na Chuva, Sinfonia de Paris e Amor, Sublime Amor, a obra tende a ser uma reinvenção do gênero tanto pela ousadia quanto pelo formato. Isso não se restringe tão-somente à trilha cantarolada, Demy possuía outros artifícios inusitados nas mangas, como a cena em que os pombinhos parecem “flutuar” na calçada, avançando sem mexer as pernas, ou a despedida de Geneviève e Guy na estação de trem quando este parte para a Guerra na Argélia: nada de usar clichês como fumaça em excesso ou corridas desesperadas, a câmera é subjetiva, afasta-se com o trem, a observar a garota tristonha cada vez menor no horizonte. Logo, o mundo colorido de Demy é inundado pelos tons cinzentos e negros, desbotando o destino de seus personagens. Encantador!


Um dos maiores filmes sobre a Guerra do Vietnã — veja só! — foi baseado num livro do século 19. Naturalmente, a trama foi adaptada, mas a essência está toda lá, e não é sobre a guerra em si, mas, sim, um estudo sobre o homem e sua incapacidade de ficar em paz com os outros. Marlon Brandon, monstro-sagrado de Hollywood, toma emprestada a fala do coronel Kurtz, de Coração das Trevas (Joseph Conrad), para descrever a visão que ele tem do mundo: “o horror, o horror”. Apocalypse Now (1979), a obra-prima de Francis Ford Coppola (digo isso porque coloco este acima de Poderoso Chefão, viu?) mantém o clima de mistério, de que algo de ruim está por vir, mas toda vez que revejo sinto que esse “algo ruim” já está infiltrado desde a primeira sequência, misto de sonho e realidade do personagem de Martin Sheen; o mundo não para de gritar, a violência e a loucura estão entranhadas nos seres humanos de tal maneira que as ruas de Saigon, mostradas ali no comecinho, bem poderiam ser as ruas de São Paulo ou do Rio de Janeiro. O que nos resta? Kurtz estava certo: o horror, o horror.


Admito que não sou muito fã do Emir Kusturica. Seu Mentiras de Guerra, que também levou uma Palma de Ouro nos anos 90, é superentediante, talvez careça de uma revisão minha, sei lá. Mas Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (1985) é o tipo de filme que emociona, faz pensar e, sobretudo, faz parar de reclamar um pouco da vida. Essa coisa de “criar uma farsa em tempos conturbados” para não fazer o outro sofrer já tinha sido magistralmente trabalhado no tcheco A Pequena Loja da Rua Principal (assista se puder!). E como esquecer de A Vida É Bela? Mas Kusturica não fez feio com esta pequena obra-prima sobre um rapaz que é enganado após seu pai ser enviado a um campo de prisioneiros políticos, durante a ditadura comunista. A família conta ao rapaz que seu pai foi fazer uma viagem a trabalho, mas o espectador, que conhece a verdade, sofre por ele. Fica, então, o debate se é correto ou não criar essa mentira, que um dia será contestada. É mais ou menos como quando alertamos uma criança de que o papai ou a mamãe fizeram uma viagem, quando na realidade um dos dois morreu. Triste, porém é mais frequente do que pensamos.


Observação:
Como a postagem ficou grande até aqui (eu sei que me empolgo, rs), vou dar um break e continuar depois, numa 2ª parte, ok? Espero que eu tenha despertado a curiosidade de vocês em ver ao menos um dos filmes já citados e, claro, em conferir quais os outros 5 da lista.
Até breve!

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