24 de mai de 2013

CINEMA: Meus 10 ganhadores da Palma de Ouro favoritos (2ª parte)


Enquanto a Palma de Ouro deste ano não sai, continuemos com mais 5 filmes que fizeram história em Cannes, dando prosseguimento à postagem anterior. No total, são os meus 10 favoritos a ganhar o prêmio máximo do Festival nas últimas 6 décadas.

Tenho certeza de que muitos de vocês não viram os 5 filmes listados anteriormente, não é mesmo? Embora famosos, ainda estão para ser descobertos pelas gerações mais novas, o que não é difícil hoje em dia, com a cada vez maior distribuição de clássicos em DVD no Brasil e os canais de tevê paga (sem falar na internet, que pôs em prática o termo globalização).

Assim sendo, confira mais 5 Palmas de Ouro que curto e recomendo. São 5 filmes que entraram para os meus favoritos e que talvez entrem para os seus...



Eu amo as películas orientais, e Adeus, Minha Concubina (1993) é a quintessência das produções chinesas: traz cenários, fotografia e figurinos deslumbrantes (alguém aí lembrou de Zhang Yimou?). É também uma pequena aula de história, sobre como a famosa ópera de Pequim foi se tornando o que é hoje ao longo dos tempos, palco de peças visualmente impecáveis e componente mitológico de uma cultura milenar. Não podemos esquecer: essas peças são constituídas por pessoas, portanto, há sofrimento, esforço e disciplina por trás disso tudo. E também existe amor. O amor platônico, a transformação da personalidade e as desilusões fazem parte desse jogo.

Aqui, acompanhamos a trajetória de uma trupe de atores e cantores chineses no começo do século 20, desde a infância, marcada pela rigidez na preparação artística dos meninos, até a consagração do grupo. O diretor Chen Kaige vai tecendo o enredo em meio a conflitos políticos (e Deus sabe como houve conflitos na China!), que servem de pano de fundo para as antigas histórias românticas, encenadas pelos personagens toda noite no palco. Ao contrário do que muita gente pensa, não enxergo o filme como uma bandeira do movimento gay, mesmo que a trama gire em torno de um ator (lembre-se de que na dramaturgia oriental, ao menos antigamente, somente homens podiam atuar, inclusive fazendo papéis femininos) apaixonado por seu colega de cena, rivalizando com a esposa deste. Brilhante estudo psicológico sobre o sentimento impossível e a humilhação, o auge e a decadência. Em suma, lindíssimo e trágico.


É quase impossível encontrar alguém que não goste de pelo menos um filme de Quentin Tarantino. A cada lançamento seu, o público corre para dar algum parecer, seja para transformar o filme num novo objeto de culto (como a saga Kill Bill) ou para dizer que a novidade não é lá essas coisas (como o terror À Prova de Morte, assumido pelo próprio autor como um de seus deslizes). Não tem como um cinéfilo não se render ao cinema de Tarantino, ele mesmo um cinéfilo doente e assumido, que a cada novo trabalho faz uma colagem de referências, todas da época em que trabalhava numa videolocadora nos anos 80, antes de começar a carreira de roteirista e, em seguida, se tornar num dos mais brilhantes diretores americanos da atualidade.

Não tem jeito. Pulp Fiction (1994) é Tarantino em sua melhor forma, fazendo um belo pastiche dos filmes B de gângsteres dos anos 70 e resgatando a carreira de um dos maiores astros daquela época, John Travolta, que, dez anos antes, estava praticamente mendigando papéis péssimos em filmes péssimos. Tarantino, sim, é mestre em pegar coisas consideradas ruins do passado e remodelar, modernizar o material, até transformá-lo num tesouro. É o Toque de Midas de um pequeno gênio, e Pulp Fiction, pra quem não viu ainda, é ouro puro. E dinamite também.


Visto como um pecado impensável tanto pela Bíblia quanto pelo Alcorão, o suicídio é posto em debate em Gosto de Cereja (1997). Mas não vá pensar que o elenco mínimo deste belo filme fica só discutindo a esse respeito para, no final, bater o martelo sobre quem tem razão e quem está equivocado. Na verdade, o motorista solitário que busca em desespero alguém para ser cúmplice de seu suicídio não expõe qualquer motivação; ele se recusa a explicar por que autoaplicou tão drástica sentença. Ele sai atrás de uma alma que não veja essa, digamos, resolução de consciência (ou falta dela) com reproche ou censura, que simplesmente a aceite com naturalidade. O que se tem até pouco mais da metade da fita é uma objetividade crucial nas falas: o sr. Badii lança a proposta, os estranhos recolhidos por ele na estrada de um Irã em constante reconstrução e expansão escutam e, mais tarde, finalizam suas decisões, isto é, aceitam ou não a tentadora oferta: uma boa soma em dinheiro para, na manhã seguinte, enterrar o sujeito numa cova previamente cavada por ele ou, no caso de arrependimento, ajudá-lo a sair do buraco.
 
Falar de Gosto de Cereja é falar de contrastes, sejam eles na conduta técnica do enredo ou na forma como os personagens afrontam o polêmico assunto tratado, cada qual reagindo de uma maneira distinta. O soldado-raso, o seminarista e o taxidermista exibem respectivamente medo (a inexperiência da juventude), ponderação religiosa (idade adulta, vinculada à fé islâmica) e sabedoria (uma sensatez somente adquirida com a idade e com as próprias vivências, sobretudo no ramo científico). É para ser visto e revisto. E ser refletido.


Sabe aquele tipo de filme que perturba? Pois o romeno Cristian Mungiu soube fazer isso com precisão cirúrgica ao narrar a história de 2 amigas, uma delas grávida, que comem o pão que o diabo amassou ao tentar realizar um aborto numa espelunca de hotel, pelas mãos de um carniceiro sem escrúpulos, ao mesmo tempo em que uma delas precisa bater ponto na festa de aniversário da sogra.
 
Para assistir a 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007) e compreendê-lo melhor, é necessário ter um conhecimento prévio sobre a história da Romênia e o contexto no qual a trama é ambientada, os tenebrosos anos 80. Naquele período, o ditador Nicolau Ceausescu (e sua esposa, Elena, uma víbora) colocou em prática uma lei que mais ou menos obrigava as mulheres a procriarem feito cadelas para, obviamente, aumentar a população e, no futuro, ter mais mão de obra. O problema é que o país era extremamente pobre, comunista, e muitas mães acabavam abandonando seus recém-nascidos, e a Romênia passou a ter mais orfanatos do que hospitais. Interromper a gravidez era, portanto, um crime de pena capital. Mas a jovem grávida do filme de Mungiu é universitária, solteira, e, em vez de abortar seus projetos profissionais, prefere abortar o bebê. Sua amiga, a verdadeira protagonista, faz de tudo para ajudá-la, passando pelos maiores maus bocados do filme, tudo espiado por uma câmera inquieta, que dá um tom quase documental à obra e nos deixa ainda mais inquietos do que ela. As sequências são frias, cruas, impressionantes e claustrofóbicas, à moda dos irmãos Dardenne ou Lars Von Trier. Um soco no estômago que dificilmente sairá de sua memória, assim como não saiu da minha.


Não poderia deixar de incluir este. Assumo que sou fã de Michael Haneke há algum tempo (sua 1ª Palma de Ouro, A Fita Branca, quase entrou neste Top 10). Amor (2012) é provavelmente seu projeto mais terno e, ao mesmo tempo, sombrio. Como pode isso?

Longe de ser rotulado apenas como um conto romântico, como o título sugere, Amor é o retrato mais duro da velhice na telona nos últimos anos (sim, eu vi Longe Dela, rs), de como a decadência física é algo que está aí e deve ser enfrentada em todas as famílias, em todas as casas. A lógica é que algum dia iremos passar por tudo isso também. Quer coisa mais triste?

Um casal de idosos vê sua calma e tranquila aposentadoria ser abalada pela doença, a partir dali é uma sucessão de fatos cada vez mais deprimentes, mas é o laço afetivo que mantém os impecáveis Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, duas sumidades do cinema francês, unidos. A cena inaugural já alerta para o final trágico. A eutanásia é colocada em debate, claro, mas Amor é em especial um filme sobre dedicação e companheirismo, sobre como duas pessoas que se amam podem ainda fazer de tudo uma pela outra, quando uma precisa da outra. No entanto, poderia uma viver sem a outra? Haneke parece dizer que não, e fica claro que seu filme é uma provocação às gerações cada vez mais individualistas e desinteressadas ao sofrimento alheio. Nada que faça ensopar lenços de papel — sentimentalismo hollywoodiano passa longe — no entanto é uma baita lição de... amor.

4 comentários:

  1. E mais uma vez amor em uma de suas listas hehehhe
    O filme é realmente fantástico!
    Abraços e excelente final de semana!

    senhordoseculo.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não tem jeito, eu adorei esse filme. E se bobear deve entrar no Top10 da década, em 2019, qdo eu a elaborar - hihihi
      Abração, Dimas, e obrigado pela visita.
      =)

      Excluir
  2. ótima lista!

    eu acrescentaria o "A Árvore da Vida" apenas.

    to doido pra ver esse novo ganhador "A Vida de Adèle"

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Árvore da Vida merece uma revisitada minha, lembro que gostei (e até previ a indicação ao Oscar de Melhor Filme e Direção com um amigo meses antes do anúncio -- sempre faço as apostas com ele sobre os indicados). E, de fato, esse 'La Vie d'Adéle' parece ser a coqueluche do momento. Infelizmente, porém, o lançamento comercial está previsto somente pro final do ano, lá pelo mês de outubro... Aguardemos.
      Abração, Rafael, e obrigado pela visita! Um ótimo feriadão pra vc! ^^

      Excluir