3 de jul de 2013

CINEMA: Tabu (2012), de Miguel Gomes


Dificilmente filmes atuais conseguem surpreender pela inovação narrativa, uma vez que tudo nos traz um certo déjà vu, cabendo a responsabilidade da trama ser a grande surpresa da obra. E, convenhamos, muitos roteiristas parecem sair dos trilhos quando querem nos surpreender com desfechos cheios de reviravoltas, chega a ser maçante e até pouco surpreendente, pois já deduzimos as coisas mais absurdas do mundo quando vamos ao cinema esperando ver um filme que, dizem, traz um final-surpresa, certo?

O português Miguel Gomes, na contramão, revisitou o passado, assim como Michel Hazanavicious o fez com O Artista (o mais bem-sucedido filme silencioso dos últimos 80 anos) ou Pablo Berger no interessantíssimo mas pouco badalado Blancanieves, que, aliás, também estreia este mês no Brasil. Gomes, porém, não quis fazer uma simples e taxativa homenagem ao cinema preto-e-branco e mudo, e sim contar uma história fincada a princípio no presente, com ressonâncias advindas de longas décadas passadas.

Dividido em 2 partes, Tabu — pra mim, um dos 3 melhores filmes de 2012, ao lado do chinês Uma Vida Simples e do franco-austríaco Amor — acompanha Pilar na tentativa de entender o que parece ser uma senilidade misturada à depressão da vizinha Aurora. Esta última vive com a empregada, Santa, a quem acusa de lhe querer o mal por meio de "macumbas e outros feitiços", sua vida se restringe a perder grandes quantidades de dinheiro num cassino. Ela está falida e doente, praticamente esquecida pela família.

Tudo é muito bem-conduzido até ali, mas é na segunda metade da história, relatada por um homem misteriosamente ligado a Aurora e ambientada na África colonial, que a beleza do filme recebe seu polimento no maior esplendor. Nenhum diálogo é proferido, vemos somente os atores mexendo os lábios, como num filme mudo. Tampouco há intertítulos, mas a história está ali, narrada em off pelo homem misterioso, cuja biografia vai rapidamente se desanuviando para o espectador.

O canto dos pássaros, uma música executada por uma tribo, o barulho das águas, o motor de um caminhão: a trilha ideal para embalar a história de amor que se desenvolve naquela paisagem desoladora e ao mesmo tempo magnífica de Moçambique. E é na construção desse romance que chegamos ao clímax e à saciedade dos mistérios salpicados na primeira parte, sobre as origens do grande sofrimento que Aurora parecia emanar e querer esquecer.

Uma obra-prima que merece ser vista e revista com muito carinho!

Obs: Tabu estreou nos cinemas brasileiros no último fim de semana. Confira sua programação local.

2 comentários:

  1. Adorei a dica, eu sempre procuro filmes quepossam me surpreender. A indústria do cinema está muito repetitiva, eles optam por seguir um padrão de sucesso que acaba tornando tudo revisível. Vou procurar esse filme!

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    1. Pois é, Geovani, e esse filme é mesmo encantador e surpreendente. Pena que, por não ser nada comercial, ainda mais por ser em preto-e-branco, só alguns cinemas de grandes cidades irão se interessar em exibi-lo. Mas tenta achar pois vale a pena!
      Obrigado pela visita e desde já uma ótima sexta-feira!
      ^.^

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