Sabe aquela premissa de que não se deve julgar um livro pela capa? Pois Se eu Morrer Antes de Você (Universo dos Livros, 480 págs) é desse tipo: quando bati o olho na livraria, no começo do mês, pensei que estivesse na seção errada, mas não. Não se trata de um romance açucarado ao estilo Nicholas Sparks, embora tenha uma sequência de amor um tanto explícita lá pelos idos da página 300, 350.
Seguindo o estilo de algumas de minhas autoras favoritas, como Tess Gerritsen ou, em especial, Patricia Cornwell (que eu adoro), a americana Allison Brennan apresenta um thriller protagonizado por uma personagem feminina que, com a ajuda de algumas pessoas, tenta desvendar a identidade de um serial killer. Assim como já ocorreu em determinadas histórias com as personagens mais famosas das escritoras já mencionadas, sobretudo com a legista (e bisbilhoteira) Kay Scarpetta, criada por Patricia Cornwell, Se eu Morrer Antes de Você também traz aqui uma ameaça à heroína.
Deve-se, porém, destacar que Lucy Kincaid, a personagem central, tem um passado bem díspar e inusitado: fora vítima de um sequestro e um duplo estupro, exibido pela internet, praticado por dois maníacos quando ela ainda estava saindo da adolescência. Lucy poderia ter virado vítima do seu próprio trauma, mas conseguiu superar. Passou a estudar como se sua existência dependesse disso, fez cursos de autodefesa, quase virou uma nadadora olímpica, cursou psicologia, fez especializações em criminologia e, agora, tenta ingressar no FBI com o intuito, justamente, de perseguir criminosos sexuais que atacam virtualmente. Allison Brennan adora destacar todos os atributos de sua personagem nos primeiros capítulos.
Na família de Lucy (inclusive um ex-namorado, que depois virou amigo) existem agentes da Inteligência Americana, psiquiatras, etc., e é com a ajuda destes que ela constrói armadilhas para capturar estupradores que marcam encontros via internet, fazendo-se passar por garotas inocentes em salas de bate-papo. A coisa começa a ficar, de fato, bizarra quando esses criminosos fisgados por ela começam a ser assassinados, e Lucy passa a acreditar que esteja sendo alvo de uma perseguição.
Até agora não revelei nada, está tudo mais ou menos descrito na sinopse do livro, atrás daquela capa idílica, que imprime um título ainda mais meloso — nada a ver com seu conteúdo... O mais interessante ao descobri-lo na livraria foi que ele trazia um contexto particularmente atual: o perigo por trás desses encontros marcados em chats virtuais com estranhos. Mas calma, nem toda mulher que utiliza esse tipo de ferramenta, na busca do “príncipe encantado”, vai se deparar com um psicopata misógino. Mesmo assim é um risco iminente.
O arquétipo da heroína quase infalível, sedutora, que jamais questiona se suas ações são as mais corretas, sempre destemida, é derrubado por Brennan, embora alguns clichês do gênero estejam presentes, como cartas de assinatura falsa, porões que acobertam crimes horrendos e tortura, câmeras de segurança que desvelam surpresinhas, pensamentos em primeira pessoa, grafados em itálico, do próprio serial killer, a constante suspeita, por parte do leitor, sobre o novo namorado de Lucy, etc. Entretanto, não chega a ser um livro incômodo ou escatológico, como poderia se supor, dado o tema perverso da trama. Mas a autora é bem-sucedida em elaborar capítulos cada vez mais tensos, que não nos fazem querer desgrudar de suas páginas.
Existem aqueles pequeninos mistérios e estudos psicológicos, sempre encontrados nos bons romances policiais: como Lucy pôde superar tamanha brutalidade em tão pouco tempo? O que um de seus primeiros algozes estaria fazendo na cidade em que Lucy mora, antes de ser assassinado, sendo que ele devia estar cumprindo prisão num outro estado? O que o enigmático serial killer do enredo procura? Ele age sozinho ou possui comparsas?
Aparentemente, Se eu Morrer Antes de Você faz parte de uma série, tanto que o último capítulo, na realidade, é uma prévia de outro romance da mesma autora, mas nada que impeça você de saborear este de modo independente. Minha maior ressalva, além do título inadequado e da capa meio romântica (embora, após a leitura, tenha passado a enxergar uma dubiedade na foto), é com relação aos erros de digitação, que concatenam algumas palavras (cadê o revisor?). No geral, para quem gosta de romances policiais, é um bom exemplar e um ótimo passatempo.
Observação:
E não deixem de participar do sorteio que o BAZAR está promovendo este mês na fan page. Para participar é muito simples e rápido, não vai levar nem 1 minuto do seu tempo e você terá a chance de levar para a casa um kit com 3 cosméticos da luxuosa marca francesa Nickel, todos já resenhados pelo blog. O prêmio vale cerca de R$ 300, um presentão de fim de ano!
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28 de nov. de 2013
26 de nov. de 2013
FUTURO: Um 'sneak peek' do que o blog ainda irá resenhar nas próximas semanas! ;-)
Hoje não vou resenhar nada especificamente, vou apenas mostrar algumas comprinhas ou presentes que recebi nas últimas semanas de algumas assessorias e que devem ganhar por aqui textos mais detalhados ainda este ano. Como dá pra ver na foto acima, 99% do que estou me referindo consistem em cosméticos. Como um amigo meu disse neste fim de semana, sou "fascinado por cheiros", e é verdade. Os dermocosméticos também são alvo de meu interesse, mas, de fato, os cosméticos perfumados — hidratantes corporais, cremes de mão, perfumes, colônias, etc. — são um vício.
De qualquer maneira tem muita coisa para todos os gostos, desde uma manteiga labial com aroma de bala até um óleo que deu uma considerável melhora no aspecto de meus cabelos, reduzindo o frizz e aumentando o brilho, porém sem alterar — vejam só — a oleosidade. Tem até um enxaguante bucal que promete clarear os dentes, coisa que jamais havia testado, mas que estou usando diariamente, como manda o rótulo (já até tirei uma foto para usar no "antes & depois").
Além de experimentar cosméticos, o BAZAR também é um blog cultural. De janeiro pra cá já publiquei diversos textos sobre exposições de arte, fotógrafos, dicas de filmes (novos ou clássicos) e, naturalmente, livros. Eu sou meio apaixonado por livros também; no começo de novembro comprei esse da foto acima, não por causa da capa ou do título (que eu particularmente achei bem enganadores, conforme já dissera no Instagram), e sim por conta do enredo bem eletrizante e atual: o perigo por trás dos encontros marcados via internet. Quem adora um romance policial aguarde!
A Ducha Cosméticos também foi muito gentil em me mandar como lembrança de fim de ano um tubo com sais de banho supercheirosos (como, aliás, tudo que a marca faz), além de uma cartinha com dizeres bem simpáticos, distribuída aos blogs parceiros da marca (clique aqui e veja o que o BM já escreveu sobre a Ducha).
Bom, acima temos um plano geral dos produtinhos que em breve ganharão resenhas. Alguém aí já usou algum deles? Veremos o veredicto ao longo de dezembro (espero concluir o ano sem deixar nenhuma pendência - hehe).
Uma ótima semana a todos!
^^
Observação:
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10 de set. de 2013
LIVRO: A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan
A Visita Cruel do Tempo (ed. Intrínseca), de Jennifer Egan, ganhou o Pulitzer de Literatura e mais uma penca de prêmios 2 anos atrás, como observa a capa e a contracapa. Devo admitir que é o tipo de obra que costuma agradar em cheio aos críticos: não é uma narrativa linear e fluida, é cheia de mudanças cronológicas, uma hora o narrador é um; no capítulo seguinte, é outro, há uma interrupção abrupta na prosa e nos deparamos com dezenas de páginas com grafismos, balões de formatos variados e flechas... Do que se trata, afinal, esse livro?
A meu ver, é o tipo de história — ou “desconstrução da história” — em que a falta de uma ação única, um começo, meio e fim, é justamente seu principal motivo de existência. O niilismo está ali, intrincado em todos os personagens, cujas trajetórias vão se cruzando e descruzando, todos sem muito ânimo de viver, há um desapego total pelo cotidiano. Eles todos, de certo modo, se conhecem, mas nenhum está intimamente ligado, pequenos “conflitos” vão afastando todos; eles vêm, se tocam, mas não permanecem ligados por muito tempo. No fundo, é uma obra que exacerba o mundo individualista em que vivemos e de como esse abismo entre os seres humanos vai afetando o psicológico.
O melhor capítulo é, para mim, o da abertura, quando a ex-assistente de um empresário musical se vê numa saia-justa após ter sua cleptomania vergonhosamente flagrada num restaurante. Logo de cara, quando começamos a ler, a impressão que fica é de que será um estudo psicológico (e dos bons!) sobre essa personagem, que teremos um desenrolar dos fatos expostos. Sasha, a personagem em questão, relembra coisas que talvez a levassem a praticar esses pequenos furtos, a vergonha que sente, as conversas com o terapeuta, essas coisas. No capítulo seguinte, somos atirados para um quadro totalmente adverso, o narrador e o tempo parecem outros. E são mesmo.
Outro trecho interessante é quando acompanhamos o tédio de um jornalista, raramente impressionável, que deve entrevistar uma estrela de cinema, a mais popular do mundo, também acometida por um tédio e marasmo gigantesco, cansada de todas as mordomias e da concepção do glamour que os outros fazem dela. A entrevista é incomum, a atriz parece querer desabafar e encontra no repórter uma espécie de confidente para além da vida pública, a confiança aparece, mas logo é dissipada quando o outro também tenta ultrapassar os limites do anônimo/celebridade.
Em quase tudo, a indústria musical e do entretenimento está presente. É difícil se identificar por completo com esses personagens, uma vez que a realidade apresentada é tão díspar da nossa. Claro que anseios e desilusões são comuns nos seres humanos, as causas aqui, porém, parecem muito distantes. A autora, Jennifer Egan, dificilmente irá obter do leitor comum algum tipo de empatia por Sasha, Jules Jones, Bosco ou Bennie, seus personagens centrais. A trama vai circulando por todos eles, numa narração quase labiríntica. No entanto, quando tudo termina, parece não ter nos levado a nada. Talvez seja o tipo de trabalho que demande uma revisão, não é de todo complexo, mas a mensagem que Egan arriscou-se a transmitir não é de fácil digestão. Fica um leve contágio da amargura e da depressão de seus personagens.
A meu ver, é o tipo de história — ou “desconstrução da história” — em que a falta de uma ação única, um começo, meio e fim, é justamente seu principal motivo de existência. O niilismo está ali, intrincado em todos os personagens, cujas trajetórias vão se cruzando e descruzando, todos sem muito ânimo de viver, há um desapego total pelo cotidiano. Eles todos, de certo modo, se conhecem, mas nenhum está intimamente ligado, pequenos “conflitos” vão afastando todos; eles vêm, se tocam, mas não permanecem ligados por muito tempo. No fundo, é uma obra que exacerba o mundo individualista em que vivemos e de como esse abismo entre os seres humanos vai afetando o psicológico.
O melhor capítulo é, para mim, o da abertura, quando a ex-assistente de um empresário musical se vê numa saia-justa após ter sua cleptomania vergonhosamente flagrada num restaurante. Logo de cara, quando começamos a ler, a impressão que fica é de que será um estudo psicológico (e dos bons!) sobre essa personagem, que teremos um desenrolar dos fatos expostos. Sasha, a personagem em questão, relembra coisas que talvez a levassem a praticar esses pequenos furtos, a vergonha que sente, as conversas com o terapeuta, essas coisas. No capítulo seguinte, somos atirados para um quadro totalmente adverso, o narrador e o tempo parecem outros. E são mesmo.
Outro trecho interessante é quando acompanhamos o tédio de um jornalista, raramente impressionável, que deve entrevistar uma estrela de cinema, a mais popular do mundo, também acometida por um tédio e marasmo gigantesco, cansada de todas as mordomias e da concepção do glamour que os outros fazem dela. A entrevista é incomum, a atriz parece querer desabafar e encontra no repórter uma espécie de confidente para além da vida pública, a confiança aparece, mas logo é dissipada quando o outro também tenta ultrapassar os limites do anônimo/celebridade.
Em quase tudo, a indústria musical e do entretenimento está presente. É difícil se identificar por completo com esses personagens, uma vez que a realidade apresentada é tão díspar da nossa. Claro que anseios e desilusões são comuns nos seres humanos, as causas aqui, porém, parecem muito distantes. A autora, Jennifer Egan, dificilmente irá obter do leitor comum algum tipo de empatia por Sasha, Jules Jones, Bosco ou Bennie, seus personagens centrais. A trama vai circulando por todos eles, numa narração quase labiríntica. No entanto, quando tudo termina, parece não ter nos levado a nada. Talvez seja o tipo de trabalho que demande uma revisão, não é de todo complexo, mas a mensagem que Egan arriscou-se a transmitir não é de fácil digestão. Fica um leve contágio da amargura e da depressão de seus personagens.
25 de jul. de 2013
DICA DE LIVRO: O Homem de Calculava, de Malba Tahan
O matemático Júlio César de Melo e Sousa escreveu O Homem que Calculava (ed. Record) sob o pseudônimo de Malba Tahan (acho que ele também era professor, não tenho certeza). Foi só mais uma brincadeira para familiarizar o público com sua história passada no Oriente Médio do século 13. Eu mesmo, quando escutei pela primeira vez a respeito dessa obra, tinha pensado que era um clássico da literatura árabe ou algo assim. Mas não.
O Homem que Calculava é um livro superleve, gostoso de ler, até mesmo por quem não curte matemática. Digo isso porque ele conta a história de Beremiz Samir, grande conhecedor de cálculos, aritmética, geometria, filosofia, raciocínio lógico, etc. Um sábio, em resumo. Beremiz vai encantando xeques, reis, poetas, comerciantes (e leitores) ao passar por Bagdá e encontrar a solução para dezenas de pequenos enigmas numéricos. Ou seja, quem fica sabendo dessa sinopse pode pensar que se trata de um livro 100% didático. Socorro!
Uma coisa que devo salientar: sempre me destaquei nas disciplinas humanas, na escola. Tirava notas altas em gramática, história, geografia, redação, inglês, filosofia. O que eu possuía de bom relacionamento com as letras, em contrapartida, eu tinha de litigioso com os números. Era (e ainda sou) péssimo em matemática, geometria, física e química. Tudo que envolvesse fórmulas, frações, raiz quadrada, as quatro operações fundamentais da aritmética, etc., etc., etc. Em concursos, por exemplo, vou bem em tudo menos matemática (snif!). Era, portanto, pra eu correr desse livro.
No entanto, Malba Tahan soube fazer puro entretenimento. Conduziu sua narrativa de modo a fisgar mesmo os que detestam ver equações do 2º grau na frente. Os cálculos realizados pelo personagem central são, na realidade, provenientes de raciocínio lógico. Ele enxerga além do que as pessoas costumam perceber à primeira vista; os primeiros resultados são estranhos, parecem não fazer sentido. Eis que Beremiz aparece e, como passe de mágica, esclarece tudo com explicações extremamente elucidativas. “Como não pensei nisso antes”, dizia a mim mesmo ao fim de cada capítulo. Não é magia ou feitiço, é matemática!
Tenho certeza de que muitos de vocês irão amar esse romance, se é que já não o leram (foi lançado há mais de 70 anos, é um clássico absoluto por aqui!). O autor não faz apenas joguinhos algébricos ou fala de coincidências e curiosidades acerca dos números como também traça um panorama histórico do Oriente, conta a lenda de como o jogo de xadrez nasceu na Índia, fala da importância religiosa naquela região, conta a vida de importantes matemáticos da Antiguidade, entre outras coisas. Sua maior lição é que estamos rodeados pela matemática.
Mesmo que você tenha enorme dificuldade em ultrapassar estágios mais simples, como a tabuada de dois ou dez, ou resolver algumas questões de concurso ou vestibular, aprenda a gostar dos números, pois sem eles nossa vida não seria como ela é.
O Homem que Calculava é um livro superleve, gostoso de ler, até mesmo por quem não curte matemática. Digo isso porque ele conta a história de Beremiz Samir, grande conhecedor de cálculos, aritmética, geometria, filosofia, raciocínio lógico, etc. Um sábio, em resumo. Beremiz vai encantando xeques, reis, poetas, comerciantes (e leitores) ao passar por Bagdá e encontrar a solução para dezenas de pequenos enigmas numéricos. Ou seja, quem fica sabendo dessa sinopse pode pensar que se trata de um livro 100% didático. Socorro!
Uma coisa que devo salientar: sempre me destaquei nas disciplinas humanas, na escola. Tirava notas altas em gramática, história, geografia, redação, inglês, filosofia. O que eu possuía de bom relacionamento com as letras, em contrapartida, eu tinha de litigioso com os números. Era (e ainda sou) péssimo em matemática, geometria, física e química. Tudo que envolvesse fórmulas, frações, raiz quadrada, as quatro operações fundamentais da aritmética, etc., etc., etc. Em concursos, por exemplo, vou bem em tudo menos matemática (snif!). Era, portanto, pra eu correr desse livro.
No entanto, Malba Tahan soube fazer puro entretenimento. Conduziu sua narrativa de modo a fisgar mesmo os que detestam ver equações do 2º grau na frente. Os cálculos realizados pelo personagem central são, na realidade, provenientes de raciocínio lógico. Ele enxerga além do que as pessoas costumam perceber à primeira vista; os primeiros resultados são estranhos, parecem não fazer sentido. Eis que Beremiz aparece e, como passe de mágica, esclarece tudo com explicações extremamente elucidativas. “Como não pensei nisso antes”, dizia a mim mesmo ao fim de cada capítulo. Não é magia ou feitiço, é matemática!
Tenho certeza de que muitos de vocês irão amar esse romance, se é que já não o leram (foi lançado há mais de 70 anos, é um clássico absoluto por aqui!). O autor não faz apenas joguinhos algébricos ou fala de coincidências e curiosidades acerca dos números como também traça um panorama histórico do Oriente, conta a lenda de como o jogo de xadrez nasceu na Índia, fala da importância religiosa naquela região, conta a vida de importantes matemáticos da Antiguidade, entre outras coisas. Sua maior lição é que estamos rodeados pela matemática.
Mesmo que você tenha enorme dificuldade em ultrapassar estágios mais simples, como a tabuada de dois ou dez, ou resolver algumas questões de concurso ou vestibular, aprenda a gostar dos números, pois sem eles nossa vida não seria como ela é.
6 de jun. de 2013
DICA DE LIVRO: A Queda - As Memórias de um Pai em 424 Passos, de Diogo Mainardi
Se o arquiteto Pietro Lombardo não tivesse existido, a Scuola Grande di San Marco não seria erguida na Veneza renascentista. Se Napoleão não tivesse transformado a Scuola Grande di San Marco num hospital, provavelmente não realizariam partos por lá, como acontece até hoje. Se o obstetra George Macaulay não tivesse inventado, no século 18, a amniotomia, procedimento que acelera o nascimento de um bebê por meio de uma ruptura artificial do saco amniótico, o primogênito do jornalista e escritor Diogo Mainardi, Tito, não teria sofrido uma falta de oxigenação no cérebro, causando sua irreversível paralisia. Se Tito tivesse nascido na Alemanha dos anos 1930, provavelmente teria sido executado pelos nazistas, que implantaram o chamado programa T4, a fim de fazer “eutanásias” nos bebês que nasciam “parasitas”, segundo palavras dos mais renomados médicos e cientistas de Hitler. E se Tito fosse um dos dois filhos com paralisia cerebral de Neil Young, talvez estivesse criando ovos numa granja, como de fato se passa com um destes.O livro A Queda – Memórias de um pai em 424 Passos (Ed. Record) é assim mesmo: repleto de analogias e referências ao passado que, por obra do destino, transformam-se em elos constantes. Um fato se liga a outro, e a outro, e a outro, e assim sucessivamente. Diogo Mainardi, conhecido no Brasil pela coluna que assinava na Veja e por sua participação no programa Manhattan Connection (Globo News), traça uma série de paralelos como modo de desabafar, explicar e, sobretudo, venerar Tito, seu filho com paralisia cerebral.
Mainardi mora em Veneza há mais de 20 anos, foi lá onde se casou e onde sua mulher, Anna, teve Tito, vítima de um erro médico durante o parto. Em A Queda, acompanhamos ao longo de 424 capítulos — curtíssimos, sejam eles apenas uma fotografia, uma linha ou poucos parágrafos — a indignação de um pai. Contudo, essa indignação não é proferida com insultos ou palavras duras, e sim, com muita ironia, acidez e inteligência. Mainardi elabora esses flashbacks, pessoais ou não, com muita sagacidade; seu livro não é simplesmente uma expiação do fato que virou seu mundo de ponta-cabeça, é uma curiosa aula de história também. Vale a leitura!
5 de mai. de 2013
DICA DE LIVRO: Viver para Contar, de Gabriel García Márquez
A sinopse da contracapa assegura: “Viver Para Contar (ed. Record) é provavelmente o livro mais esperado da década”. É verdade que poucos escritores vivos têm prestígio suficiente para lançar um livro de memórias e transformá-lo num best seller mundial como Gabriel García Márquez. Prova disso são os quase 2 milhões de exemplares vendidos na Europa e Estados Unidos somente no ano de seu lançamento, em 2002.
O livro começa relatando a viagem que Gabo — apelido pelo qual García Márquez atendia na juventude — realizou com a mãe até Aracataca, cidade ao norte da Colômbia, para resolver os trâmites da venda de uma casa. Gabo, então com 22 anos, acredita que aquela viagem, repleta de nostalgia, tenha transformado em definitivo a obra que o faria ganhar, em 1982, o Prêmio Nobel de Literatura.
Para o próprio autor, tudo o que ele havia escrito até aquele episódio estava fadado à obscuridade, pois era “pura invenção retórica sem base em verdade poética”. A passagem pela cidade natal (a casa posta à venda, na verdade, foi onde ele viera ao mundo, no fim da década de 20) o fizera repensar na maneira como compunha suas histórias e personagens. A proposta "inovadora" seria colocar no papel fatos e pessoas que o rodeavam diariamente, tal como aprendera com seu ídolo máximo, o americano William Faulkner.
Em inúmeras passagens do livro, essas fontes de observação se fazem notar. Descobrimos, entre outras coisas, que o bizarro hábito da pequena Rebeca, de Cem Anos de Solidão, de comer terra e cal foi inspirado no comportamento de uma de suas irmãs, Margot. Reparamos também que o namoro quase impossível de seus pais, recontado em uma dúzia de páginas minuciosas, serviu de base para O Amor nos Tempos do Cólera. E por aí vai.
Fica ainda evidente a admiração, além de Faulkner, por James Joyce e Virginia Woolf — suas maiores influências —, “descobertos” por Gabo na época em que trabalhava como repórter para alguns jornais colombianos. Aliás, seu romance de estréia, La Hojarasca (recusado por uma editora quando apresentado pela primeira vez), foi concebido nos “complicados” tempos de jornalismo. Viver Para Contar, inclusive, encerra-se no ano de 1955, às vésperas da publicação de La Hojarasca.
Para quem já teve a oportunidade de visitar ao menos um de seus títulos — como, por exemplo, o sarcástico Crônica de uma Morte Anunciada (meu favorito dele!) — sabe bem que o estilo adotado por García Márquez é o da narrativa direta, coesa, sem delongas. Mesmo assim, trechos de Viver Para Contar chegam a ser sufocantes. Os capítulos extensos e a narração ininterrupta podem assustar. O segmento em que o autor discursa sobre o assassinato do líder esquerdista Jorge Eliecér Gaitán, a 9 de abril de 1948 — dia em que Bogotá transformou-se no palco de um grave conflito entre o Exército e a população civil da Colômbia —, é talvez o mais deslocado e inconveniente da obra. De qualquer modo, o rico conteúdo do volume merece uma conferida, em especial para gosta de História.
É espantoso conceber que um sujeito seja capaz de rememorar tantos detalhes de sua juventude, enquanto muita gente não se lembra sequer do que almoçou na semana passada. O enorme armazenamento de informações do escritor chega a ser impressionante. O mais extraordinário é que ele tenha composto este livro num período extremamente difícil de sua vida. Na época de seu lançamento, o autor dividia seu tempo entre a Cidade do México e Los Angeles, onde se submetia a um tratamento médico desde a descoberta de um câncer linfático, em 1998.
Outro baque viria logo em seguida: numa determinada sequência do livro, García Márquez revela que a morte de sua mãe deu-se precisamente no dia em que colocara o último ponto final da obra (ela já passava dos 90).
Havia uma insinuação de que este seria o 1º tomo de uma trilogia, porém em seguida veio um romance, Memória de minhas putas tristes, e um compêndio de crônicas. Se tudo der certo, Gabo viverá mais um pouco para nos contar o resto de sua história.
8 de abr. de 2013
DICA DE LIVRO: O Olho Mais Azul, de Toni Morrison
Para os visitantes cults do BAZAR, mais uma boa dica de leitura. Livro de estreia da grande Toni Morrison e declaradamente a obra favorita de Oprah Winfrey, O Olho mais Azul (Companhia das Letras) é sobre uma menina negra chamada Pecola, de 9 anos, que alimenta raiva e frustração dentro de si por conta de todo o racismo que a rodeia. Ela sabe que o padrão de beleza de seu tempo (a história é ambientada na primeira metade do século 20, durante a Grande Depressão) é a estrela mirim Shirley Temple. Pecola tem a curiosa mania de mutilar as bonecas brancas e loiras que ganha de Natal. O livro é, sobretudo, um estudo psicológico e histórico de tudo o que os negros americanos enfrentaram ao longo dos tempos, em especial antes da lei de igualdade civil, na década de 60. É possivelmente a obra mais “realista” de Morrison, que também assinou o já clássico Amada (pelo qual levou um Pulitzer), narrada parcialmente em primeira pessoa por uma das amigas de Pecola, Claudia McTeer, alter-ego da escritora e testemunha do cotidiano de sua vizinhança, um bairro transformado em gueto negro.
Na segunda metade do livro, a narração é em terceira pessoa e faz um flashback, situando-nos a respeito da vida e criação dos pais de Pecola, não para justificar o tratamento que eles dão à filha, porém explicá-los melhor. Suas origens não foram muito diferentes da de tantos outros negros daquele período. O apelo emocional e ligeiramente “surrealista” da trama fica a cargo de Pecola e de sua obsessão em ter olhos azuis.
Uma coisa que minha mãe costuma falar e que nunca me esqueço é que, nos anos 70, as brasileiras suspiravam pelo ator Jardel Filho. Claro que não tenho idade para me lembrar dele, mas ao ver fotografias antigas de Jardel, sempre falava: “Mas ele é tão feio!”. Mamãe diz que as amigas contestavam: “Mas ele tem olhos azuis...” Ou seja, a cor dos olhos influenciava (e muito) os padrões de beleza da época. Aliás, até hoje muita gente pensa assim, não é mesmo?
Pecola, no livro de Morrison, é considerada muito feia. Essa feiura, contudo, é sugerida diversas vezes como uma espécie de maldição racial, uma cruz que ela carrega desde sua genealogia. Ela reza todas as noites para que Deus lhe altere a cor dos olhos, para que fiquem idênticos aos de uma colega de escola que é venerada pelas demais meninas. Pecola, cujo nome foi inspirado no filme Imitação da Vida (1934) — no qual uma garota, nascida branca, rejeita a própria mãe, negra e empregada de uma bem-sucedida empresária —, apela à magia e suplica a um homem que se diz mago ou curandeiro para que seu sonho se torne realidade. Tudo isso em meio à descoberta da sexualidade e do lado mais cruel dos homens.
O Olho Mais Azul, nesse ponto de vista, é um ancestral de Preciosa, que vocês certamente conhecem por causa do filme. E digo mais: é a versão feminista de O Filho Nativo, de Richard Wright, outro livro impressionante sobre racismo (e um de meus favoritos). Pecola e os demais personagens do livro não são apenas vítimas de sua condição física, são também do meio onde vivem (a indiferença dos médicos, o alcoolismo destroçando casamentos cada vez mais precoces, a humilhação sofrida no serviço, etc.). Morrison, claro, opta por um caminho fácil de apontar os culpados e listar toda sorte de horror e abusos que seus antepassados (e a própria autora, acredito eu) devem ter sofrido, o jeito maniqueísta quase sempre presente nas obras que abordam o assunto.
3 de abr. de 2013
DICA: Encapando os livros que você mais utiliza
A postagem de hoje está mais pra dica de decoração. E, na verdade, essa dica eu vi num site de organização há um bom tempo (acho que faz uns 2 anos) e estava querendo passá-la aos leitores do BAZAR. No ano passado, decidi pôr em prática e vocês conferem nas fotos o resultado superinteressante.
Mas o que é de tão legal? Sabe aqueles livros de referência que você frequentemente consulta? Dicionários de português, inglês, gramáticas, manuais de redação, guias da nova ortografia, enfim, coisas imprescindíveis pra
Na foto acima, meus livros de referência — encapados com papel cinza-claro e cobertos de contact incolor — estão numa prateleira branca ao lado de minha escrivaninha. Ficou bem mais bonito assim do que ver as lombadas multicoloridas de antes.
Eu já os conheço pelo formato e tamanho, mas você pode colocar uma etiqueta nas laterais (eu colei na frente mesmo, antes de aplicar o contact, vide fotos abaixo). Outra vantagem é quando o livro está bem velhinho e feio: essa padronização feita com papel dá uma rejuvenescida na sua coleção! Não fica muito mais apresentável?
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12 de mar. de 2013
DICA DE LIVRO: Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose, de Stephen Rebello
Mesmo quem não assistiu ao filme sabe reconhecer de onde vem aquela sequência eletrizante do chuveiro. Também reconhece imediatamente a afiada trilha sonora, feita com instrumentos de corda, de Bernard Herrmann. Tudo isso faz parte da mitologia que ronda o maior clássico do suspense de todos os tempos, Psicose, cujos bastidores foram recontados pelo jornalista Stephen Rebello. Escrito em 1990, quando os protagonistas Anthony Perkins e Janet Leigh ainda eram vivos (Perkins morreu 2 anos depois em decorrência da Aids, e Janet faleceu 9 anos atrás, já bem velhinha), o livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose (editora Intrínseca) é uma leitura acima de tudo prazerosa, não apenas aos fãs do mestre do suspense, mas a qualquer pessoa que se interesse por histórias curiosas.
Não é pra menos que os bastidores desta cultuada obra tenham servido de material para um livro e para outro filme. O que ocorria por trás das câmeras era tão interessante quanto. E isso remonta a fatos verídicos, que serviram de base para o livro de Robert Bloch (e este, por fim, transformar-se-ia num poderoso roteiro de cinema, a ser dirigido pelo diretor mais respeitado da 1ª metade do século 20!). Os dois primeiros capítulos do livro fazem justamente uma retrospectiva sobre os macabros crimes de Ed Gein, nos anos 50, e sobre a elaboração do livro de Bloch, cuja inspiração veio de reportagens sobre o assunto.
Gein, para quem não sabe, ficou famoso por ter matado algumas mulheres e desenterrado cadáveres num cemitério, servindo-se de ossos e pele humana para decorar sua fazenda! Além disso, fala-se de uma relação incestuosa com a própria mãe, que, segundo a lenda, teria sido embalsamada pelo próprio e guardada num freezer (o maníaco teve uma amnésia total após ser descoberto e ficou trancafiado num sanatório até morrer, em 87).
Bom, eu ainda não vi o filme de Sacha Gervasi, estrelado por Anthony Hopkins, atualmente em cartaz no Brasil, mas a julgar pelas indicações ao Globo de Ouro e ao Bafta que Helen Mirren recebeu por ele, é de se estranhar que no livro a esposa de Alfred, Alma Hitchcock, tenha uma participação tão ínfima. Ela quase nem é citada! De qualquer modo, são curiosas as histórias sobre como o grande cineasta teve de burlar a censura para introduzir um pouco de sexualidade na trama, duas cenas de extrema violência e (atenção para o spoiler!) o tema do travestismo — tudo muito chocante para as plateias em 1960.
Os cinéfilos também irão gostar de saber que Psicose era, na verdade, uma resposta ao diretor francês Henri-Georges Clouzot, que havia feito um tremendo sucesso poucos anos antes com o aterrador As Diabólicas (a cena mais famosa deste se passa numa banheira e seu desfecho também traz uma surpresinha). Havia ainda a preocupação de Hitch em provar sua eficiência ao lançar um filme de baixo orçamento, porém ao estilo Classe A, como Orson Welles fizera com A Marca da Maldade (58).
O êxito de Psicose foi, para seu realizador, o auge e o início de seu declínio. Depois dele, segundo Rebello, vieram expectativas jamais cumpridas (embora eu considere Os Pássaros, de 63, e Frenesi, de 72, duas excelentes amostras de que Hitchcock não estava enferrujado em seus últimos anos de vida, como muitos apontam). O fato é que o assassinato no chuveiro não se tornou apenas o símbolo máximo do thriller; ele também marcou o fim de uma era na qual o velho e bom Hitch era o maior. Felizmente, o tempo comprovou que ele continua sendo um dos grandes.
1 de mar. de 2013
DICA DE LIVRO: A Vida Antes do Homem, de Margaret Atwood
Nunca tinha lido nada da canadense Margaret Atwood, mas faz um bom tempo que sei de sua ótima reputação entre os críticos, especialmente por sua obra mais elogiada, O Assassino Cego, incluído na lista dos 100 Melhores Livros em Língua Inglesa do século 20, elaborada pela revista Time. Para corrigir essa falha, resolvi comprar A Vida Antes do Homem (editora Rocco), único título assinado por ela que encontrei numa livraria no último mês de janeiro. A sinopse parecia interessante, sobre desgastadas e frustradas relações humanas, soando bastante atual. Com uma autora de tanto prestígio nas mãos, não era para eu me surpreender, mas foi o que aconteceu: sua prosa elegante e fluida, com capítulos curtos porém recheados de reflexões ou reviravoltas fortes, me fisgou de cara.
A Vida Antes do Homem se concentra em três personagens principais, entre outros secundários igualmente importantes, cujas vidas são afetadas por uma monotonia e infelicidade alarmante, algo que nos faz pensar no mundo moderno de uma maneira genérica. Impossível não associar muita gente que conhecemos por aí com Elisabeth, Lesjo e Nate. Pessoas que vão se decepcionando com o casamento, que tiveram uma infância castrada por parentes de um amargor quase patológico, ou que vivem num mundo próprio, construído pela falta de coragem e timidez excessiva. Tudo isso está presente no material de Margaret Atwood.
A escritora prefere deixar na obra algumas lacunas para nos fazer pensar, as resoluções (ou falta delas) estão além da última página. A abordagem ao universo feminino é bastante acentuado aqui (curioso eu recomendar num blog masculino, eu sei, rs), pois Nate, marido de Elisabeth e posterior amante de Lesjo, embora seja um personagem bastante tridimensional, é usado como “pretexto” para desconstruir a identidade das mulheres, ambas com criações e objetivos diferentes, e com frustrações e destinos semelhantes. São elas os principais objetos de estudo no romance.
No fundo, seriam todas as mulheres iguais? Atwood parece querer dizer “sim”, mas só a partir do dia em que um homem se instala na vida delas. O romance se desenrola na “longínqua” década de 70, um jeito de evidenciar que as coisas não se alteram com o passar das gerações. Vale dizer que, sem as datas apontadas, poderíamos facilmente pensar que a trama se passa na atualidade. As mulheres e os homens de outrora agem tal qual as mulheres e os homens do presente. Eles também têm os mesmos tipos de problema.
Às vezes me pergunto se a depressão e o estresse com o qual convivemos só foi acentuado de uns tempos pra cá ou se sempre esteve lá (ou melhor, aqui), com a mesma intensidade, e só agora nos damos conta dele. O apego de Lesjo ao passado, simbolizado pelos dinossauros do museu onde trabalha, é um modo de compensar a angústia e monotonia cada vez mais crescente com suas perspectivas.
A Vida Antes do Homem é, em especial, um livro sobre a incomunicabilidade, o atrito entre as pessoas, escrito magnificamente por uma autora segura de si e dos mundos e habitantes que inventa. Recomendadíssimo!
3 de fev. de 2013
DICA DE LIVRO: Dança Macabra, de Stephen King
Stephen King, devo confessar, é um de meus autores favoritos. E é certamente o que mais li (pelo menos uma quinzena de livros) desde minha adolescência, quando eu devorava histórias de terror. Há muito tempo que eu estava querendo conferir o já clássico Dança Macabra, que foi relançado em 2012 pela editora Ponto de Leitura, num formato de bolso. Nas quase 600 páginas da obra, o autor faz uma análise de inúmeros produtos culturais do gênero que o influenciaram, de programas de rádio a histórias em quadrinho, passando obviamente pela literatura, televisão e cinema. Sim, é um livro de não-ficção!
Escrito entre A Incendiária e O Cemitério (já li os dois e, para mim, este segundo é o melhor de todos), Dança Macabra (1981) não é somente interessante para os fãs de King, mas também para quem adora o terror de modo geral. O mestre do gênero propõe teorias detalhadas e pessoais sobre os arquétipos do vampiro, do lobisomem, do monstro e da casa mal-assombrada. No capítulo referente ao livro mais famoso de Bram Stoker, por exemplo, ele sugere que Drácula se trata de uma obra bem mais erótica do que poderíamos imaginar. A mordida no pescoço é vista como uma espécie de sexo oral praticado pelo morto-vivo.
Curioso também ver que Stephen King, que já teve dezenas de obras adaptadas para o cinema, parece ter gostado mais da versão de Brian de Palma para Carrie, A Estranha do que o próprio livro. Aliás, esta foi sua primeira publicação e, em Dança Macabra, King conta como foi escrevê-la nos tempos de vacas magras, quando trabalhava numa lavanderia e morava num trailer com a esposa e o filho recém-nascido.
Existe, além disso, um amor incontido pelas histórias de sua infância, quando a mãe tentava impedi-lo de ouvir os programas de horror na rádio (o que, segundo ele, era ainda mais apavorante que o cinema; o som fazia a imaginação produzir imagens terríveis) ou ler gibis como Contos da Cripta (estes chegaram a ser publicados uma época no Brasil, eu me lembro de ter comprado um ou dois exemplares, hoje perdidos, no fim dos anos 80). King tampouco nos poupa de referências a um de seus primeiros ídolos da literatura fantástica, H.P. Lovecraft, que serve de inspiração para vários escritores de terror até os dias atuais. Pena que muitos livros citados permaneçam inéditos em português, pois minha curiosidade foi aguçada.
Esta edição chega às livrarias com alguns erros de impressão, como palavras concatenadas (precisa de uma revisão, editora!), mas nada que tire o prazer da leitura. Apesar de algumas delongas desnecessárias, Stephen King traz aos seus leitores um tratado importante sobre um dos gêneros mais menosprezados pela crítica literária, porém cultuado com fervor por muita gente.
Escrito entre A Incendiária e O Cemitério (já li os dois e, para mim, este segundo é o melhor de todos), Dança Macabra (1981) não é somente interessante para os fãs de King, mas também para quem adora o terror de modo geral. O mestre do gênero propõe teorias detalhadas e pessoais sobre os arquétipos do vampiro, do lobisomem, do monstro e da casa mal-assombrada. No capítulo referente ao livro mais famoso de Bram Stoker, por exemplo, ele sugere que Drácula se trata de uma obra bem mais erótica do que poderíamos imaginar. A mordida no pescoço é vista como uma espécie de sexo oral praticado pelo morto-vivo.
Curioso também ver que Stephen King, que já teve dezenas de obras adaptadas para o cinema, parece ter gostado mais da versão de Brian de Palma para Carrie, A Estranha do que o próprio livro. Aliás, esta foi sua primeira publicação e, em Dança Macabra, King conta como foi escrevê-la nos tempos de vacas magras, quando trabalhava numa lavanderia e morava num trailer com a esposa e o filho recém-nascido.
Existe, além disso, um amor incontido pelas histórias de sua infância, quando a mãe tentava impedi-lo de ouvir os programas de horror na rádio (o que, segundo ele, era ainda mais apavorante que o cinema; o som fazia a imaginação produzir imagens terríveis) ou ler gibis como Contos da Cripta (estes chegaram a ser publicados uma época no Brasil, eu me lembro de ter comprado um ou dois exemplares, hoje perdidos, no fim dos anos 80). King tampouco nos poupa de referências a um de seus primeiros ídolos da literatura fantástica, H.P. Lovecraft, que serve de inspiração para vários escritores de terror até os dias atuais. Pena que muitos livros citados permaneçam inéditos em português, pois minha curiosidade foi aguçada.
Esta edição chega às livrarias com alguns erros de impressão, como palavras concatenadas (precisa de uma revisão, editora!), mas nada que tire o prazer da leitura. Apesar de algumas delongas desnecessárias, Stephen King traz aos seus leitores um tratado importante sobre um dos gêneros mais menosprezados pela crítica literária, porém cultuado com fervor por muita gente.
2 de jan. de 2013
DICA DE LIVRO: A Geração Superficial, de Nicholas Carr
Conforme prometido na penúltima postagem do blog, em 2013 o
BAZAR se lança na editoria cultural, com dicas de filmes, músicas, exposições,
etc. Confesso que sou um devorador de livros, comprando-os regularmente em sebos,
livrarias ou mesmo tomando emprestados na biblioteca da cidade onde moro. Ademais, sou um “cinéfilo doente”, viciado especificamente em filmes clássicos. Assim, achei interessante compartilhar com os leitores do blog o que sei ou conheço
sobre o assunto (afinal de contas, cultura nunca é demais, certo?).
Hoje, a sugestão é o livro A Geração Superficial, de
Nicholas Carr (Editora Agir). Com o subtítulo “O que a Internet está fazendo com
os nossos cérebros”, a obra tenta explicar como o funcionamento do principal
órgão humano vem sofrendo alterações desde o surgimento da prensa de Gutemberg
(na verdade, Carr desmistifica essa história dizendo que muito antes de
Gutemberg os chineses já empregavam um mecanismo similar para imprimir livros e
almanaques) até, obviamente, a chegada do Google.
O livro se baseia na ideia da neuroplasticidade do cérebro.
Isto é, o órgão, de fato, se modifica com o tempo e com o modo como acessamos as
informações. Segundo o autor, perdemos a capacidade de nos ater a um texto mais
longo, de fazer grandes pesquisas bibliográficas, uma vez que tudo o que
precisamos é digitar um conjunto de palavras-chave no Google e, segundos depois, temos
tudo o que procurávamos. O próprio Nicholas Carr narra como precisou se isolar
para obter o ponto final da obra, rematando-a numa casa afastada, sem acesso
à internet e com pouco sinal de telefone, tudo para não se distrair com e-mails, atualizações de redes sociais, torpedos, etc. O mundo está viciado em tecnologia!
Claro que o livro busca uma imparcialidade nesse assunto, elencando
os pontos positivos e negativos desse fácil e grandioso acesso às informações.
Não se pode negar que muita coisa veio para o nosso bem, mas, ao ler A Geração
Superficial no finalzinho de dezembro, passei a me perguntar se não seria
interessante colocar o seguinte tópico na minha lista de metas para o ano novo:
viver mais fora do que dentro da internet... Será que dá?
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