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28 de fev. de 2014

CINEMA: Quais as apostas do BAZAR para o Oscar 2014?


No próximo domingo será realizada a cerimônia de entrega do prêmio mais cobiçado do cinema. Sei que muita gente esnoba o Oscar, alegando que é um prêmio voltado para a indústria hollywoodiana, dando ênfase a superproduções e a muito lobby dos grandes estúdios, e justamente por isso alguns títulos pouco memoráveis, como Shakespeare Apaixonado, Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei, tenham levado a estatueta de Melhor Filme.

No entanto, para qualquer cinéfilo é sempre divertido tentar adivinhar quais os filmes que sairão vitoriosos nas principais categorias. Em dezembro, eu já havia feito uma pequena previsão de quais películas teriam destaque nas indicações (relembre aqui), sendo que acertei na maioria dos casos, poucas semanas depois. Desta vez, o BAZAR dá seus palpites para as categorias mais importantes:


Fazia um bom tempo que não se tinha uma "safra" tão boa como a deste ano. Para mim, não há um indicado ruim entre os 9 concorrentes a Melhor Filme. Há fitas excelentes que foram meio subestimadas, isso é verdade. Elas acabaram recebendo pouco destaque, como Ela, de Spike Jonze, e Nebraska, de Alexander Payne.

Normalmente, antes do Oscar, temos um franco favorito ao prêmio principal da noite, pois há inúmeras premiações entre os meses de janeiro e fevereiro, como Critic's Choice, o Globo de Ouro, o Círculo dos Críticos de Nova York, o Bafta, além dos prêmios dos sindicatos de Hollywood. Este ano, a coisa foi meio dividida, não tivemos um filme que tenha arrebatado tudo, como aconteceu com Argo, no ano passado.

Mesmo assim, 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, destacou-se no Bafta, Sindicato dos Produtores e levou o Globo de Ouro de Melhor Drama. Sua maior "pedra do sapato", até final de janeiro, parecia ser Trapaça, de David O. Russell, que levou o Globo de Ouro de Melhor Comédia e o Sindicato dos Atores de Melhor Elenco, contudo, Gravidade começou a deslanchar em inúmeras premiações, levou 6 Baftas pra casa, foi o destaque do People's Choice e até empatou com 12 Anos de Escravidão no prêmio do Sindicato dos Produtores. Assim sendo, Gravidade aparece hoje como a maior ameaça para o filme de McQueen. Tá pau a pau, mas ainda acho que 12 Anos leva.


Nesta categoria parece não ter pra ninguém exceto Alfonso Cuarón, de Gravidade. E não é injustiça, não. Pelo contrário: Cuarón revitalizou o gênero de ficção científica, fez aquele que é chamado o melhor filme ambientado no espaço desde Aliens: O Resgate, de James Cameron, e colocou os nervos dos espectadores à prova. Tudo isso com dois atores em cena, mais as imagens assustadoramente belas do universo ao fundo, inseridas na pós-produção.

Não seria espantoso ver Gravidade levando o maior número de estatuetas, pois é um filme que merece sair vitorioso em todas as categorias técnicas, como Fotografia, Trilha Musical, Efeitos Visuais e Sonoros. De qualquer modo, Cuarón deverá se tornar o primeiro mexicano a receber a distinção. Justíssimo.


É na categoria Melhor Roteiro Original que Spike Jonze, menosprezado como Melhor Diretor, deverá ser recompensado pelo melancólico e superatual Ela. Mas Jonze tem oponentes de peso, como Woody Allen e o diretor David O. Russell, que, aparentemente, é seu maior fantasma por causa de Trapaça. Contudo, na minha modesta opinião, Trapaça não possui nem de longe o melhor script do ano, portanto seria injusto ver Ela perdendo aqui.

Já na categoria Melhor Roteiro Adaptado minha aposta vai para 12 Anos de Escravidão mesmo. O eletrizante Capitão Phillips pode surpreender, uma vez que foi o vencedor do prêmio do Sindicato dos Roteiristas no começo de fevereiro, mas 12 Anos, na ocasião, ficou de fora porque o autor não era sindicalizado, regra que o tornava inelegível.


Este ano, os homens se destacaram por atuações formidáveis: todos os atores são igualmente merecedores, inclusive a zebra Christian Bale (na verdade, eu teria trocado Bale por Joaquim Phoenix, mas tudo bem).

Leonardo DiCaprio fez a melhor performance de sua carreira em O Lobo de Wall Street, exagerado conforme solicitado pelo roteiro sarcástico. Bruce Dern ficou na linha entre o drama e o patético em Nebraska, tudo muito sutil e digno. O inglês Chiwetel Ejiofor emociona com seu olhar e suas expressões de dor e humilhação no papel central de 12 Anos de Escravidão, ele pode até ser uma surpresa, contudo o grande favorito é mesmo Matthew McConaughey, que se despediu de vez dos papéis de galã em comédias românticas e passou a investir em dramas mais sérios. Sua transformação física para viver um aidético em Clube de Compras Dallas é digna de nota e só perde para a de seu colega de cena, Jared Leto (mais a seguir).


Outra barbada deste ano é ver a australiana Cate Blanchett subir pela 2ª vez ao palco da Academia para levar um prêmio, desta vez de Melhor Atriz Principal (ela já levara um de coadjuvante por O Aviador). Nenhuma de suas concorrentes, embora todas talentosas, parece ameaçá-la. Cate praticamente engole tudo a sua volta em Blue Jasmine, num dos papéis mais complexos já escritos por Woody Allen: sua personagem é comovente e ao mesmo tempo desprezível. O que não se pode negar é que Cate agarrou a oportunidade de trabalhar com um dos cineastas mais importantes da História com unhas e dentes e nos presentou com uma atuação magistral.


Jared Leto levar o prêmio de coadjuvante é outra sólida certeza na noite de 2 de março. O BAZAR já havia sentido o "cheirinho de Oscar" num post dedicado ao ator/cantor, em novembro do ano passado (relembre aqui). Fazer um travesti morrendo de aids é por si só um chamariz para prêmios, mas Leto levou tudo muito a sério e ficou realmente impressionante no filme Clube de Compras Dallas.

Sem Leto no páreo, Barkhad Abdi (Capitão Phillips) e Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão) seriam candidatos com bastante força, no entanto eles já sumiram das apostas; caso um deles ganhasse, todo mundo ficaria escandalizado.


Agora a última categoria "nobre" da noite (e que costuma ser a primeira revelada na festa): Melhor Atriz Coadjuvante. Eu aposto na mexicana Lupita Nyong'o, que fez um papel pequeno porém intenso em 12 Anos de Escravidão. Neste ano, colocaram atrizes em papéis "consideráveis" como principais na categoria de coadjuvante (Julia Roberts, June Squibb). Até mesmo a maior rival de Lupita, Jennifer Lawrence, está num papel que poderia se passar por principal, mas não quiseram colocá-la rivalizando com Amy Adams pelo mesmo filme.

Aliás, Jennifer Lawrence, que "roubou" o prêmio de Emmanuelle Riva (de Amor), no ano passado, embora estivesse bem em O Lado Bom da Vida, se redimiu comigo ao fazer a performance mais interessante e memorável de Trapaça. Se Lupita Nyong'o não levar o Oscar deste ano, não será uma injustiça terrível perder para Jennifer. Esta realmente veio pra ficar.


Então, agora, é só conferir a festa e ver quais os palpites (seus e do blog) irão bater com as escolhas da Academia. Será que vai dar 12 Anos de Escravidão, Gravidade ou Trapaça como Melhor Filme?

Obs: Lembrando que há 2 filmes disputando o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro que já foram resenhados pelo BAZAR: o dinamarquês A Caça (resenha aqui) e o excepcional A Grande Beleza (resenha aqui), que nas minhas apostas deve levar, merecidamente.

3 de jan. de 2014

CINEMA: A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino


Você chega a uma balada repleta de gente milionária, vestindo “o último grito da moda”, animação e drogas por todos os lados. A música é eletrônica, no volume máximo, executada pelos melhores DJs. Personalidades excêntricas da high society, "dignas" de aparecer na próxima edição do Mulheres Ricas, fazem pose para as câmeras, se debruçam sobre os mais sarados do local, acordam, ainda meio entorpecidas por conta do álcool, do ecstasy e da música alta, junto aos primeiros raios de sol. E é aí que você começa a perceber que envelheceu, pois nada disso o anima, você deseja voltar pra casa mais cedo, decepciona-se porque nada lhe soa realmente novo, diferente ou relevante; tudo é extremamente artificial. Bom, isso pode não lhe acontecer com frequência, mas é o que ocorre, logo nos primeiros minutos de A Grande Beleza, ao escritor Jep Gambardella (Toni Servillo).

Gambardella é o renomado escritor da ficção que observa e se camufla num país decadente e ao mesmo tempo contraditório. Berço de uma das mais poderosas religiões do mundo, país que nos brindou com grandes mestres das artes como Leonardo DaVinci e Michelangelo, a Itália de hoje (e todo o planeta, por que não dizer?) é assolada por futilidades, exibicionismo e pessoas praticamente vazias de fé ou perspectivas.  Gambardella, portanto, é o reflexo dessa sociedade tão mentalmente inerte: está há anos tentando escrever um novo livro, mas não sai nada. Seus momentos de devaneio acontecem quando, ao deitar no quarto, ele observa o teto e imagina um oceano e toda sorte de ideias, no entanto ele não consegue colocá-las no papel, vive da glória e do prestígio do passado. 

O diretor Paolo Sorrentino, ao colocar sob o microscópio sua própria nação, outrora tão fundamental para o desenvolvimento mundial, agora transformada num dos centros da maior crise econômica que a Europa já enfrentou, isso sem mencionar os escândalos sexuais e de corrupção envolvendo o Vaticano e os tubarões da política, como Berlusconi, faz de A Grande Beleza uma obra magistral. Contudo, não é tão-somente isso que faz deste um dos melhores filmes de 2013. O estilo adotado por Sorrentino, uma nítida referência (e reverência) a Fellini, transforma A Grande Beleza numa espécie de híbrido dos dois mais importantes trabalhos assinados por Fellini na década de 60 — A Doce Vida (1960) e (1963) —, ou seja, não tem como errar.

Sorrentino marca um gol e tanto e nos apresenta o melhor filme italiano em mais de uma década. É como se ele mesclasse os personagens de Marcello Mastroianni das duas obras acima mencionadas: o cronista playboy de A Doce Vida, que se infiltra nas tristes orgias dos ricos e famosos + o cineasta em crise artística, de 8½, obcecado pela lembrança das mulheres que tivera em sua vida. Gambardella é a fusão de ambos, numa versão envelhecida e pessimista.

O personagem central perambula de um lado para o outro, em busca de inspiração. É assim que ele conhece belas mulheres que não têm nada além da superfície, ricaços desesperados pela “falsa juventude eterna”, ludibriados por cirurgiões plásticos que injetam botox em suas faces e confete em seus cérebros. Em determinado momento, ele chega a um célebre artista que, desde criança, faz um autorretrato diário (sem escapar nenhum dia sequer). Gambardella, então, põe-se a chorar — o espectador não sabe se é de emoção ou de desolação por ver uma obra tão absurda e pretensiosa. No fundo, o público vai ficando amargurado e sem esperança, sobra-nos apenas uma reavaliação de tudo aquilo que nos cerca, se de fato podemos testemunhar a tal beleza do título. O filme, sim, é de uma beleza singular, mas sua mensagem só reforça a feiura que o ser humano é capaz de exibir, muitas vezes sem se dar conta.

10 de dez. de 2013

CINEMA: 10 filmes que deverão se destacar no próximo Oscar (para se prestar atenção)

Ano acabando e, como todo mundo sabe, os grandes estúdios americanos começam a soltar seus melhores filmes, com temática mais adulta/séria, na tentativa de abocanhar um Oscar, o que ajuda, de certa forma, a perenizar essas obras.

Se você não é do tipo “cinéfilo de carteirinha”, desses que acompanham sites especializados, o BM fez uma lista com 10 títulos para você prestar atenção entre dezembro e fevereiro do ano que vem (período em que deverão estrear nos cinemas brasileiros; somente 2 estão em cartaz por aqui). São algumas das apostas, segundo os críticos em geral, para receber destaque nas premiações por vir, como Globo de Ouro, Bafta e, claro, o cobiçado Oscar.

Como a Academia, teoricamente, é voltada para reconhecer o mercado cinematográfico americano, são 10 filmes produzidos nos EUA, contudo há quem aposte em fitas de língua não-inglesa para algumas categorias, como O Passado, do iraniano Asghar Farhadi (já resenhado aqui).

Outro filme não americano que está tentando captar atenção suficiente para concorrer em categorias principais é o francês Azul, A Cor Mais Quente, que levou a Palma de Ouro no último Festival de Cannes (este não poderá ser indicado a Melhor Filme Estrangeiro, uma vez que a França escolheu para a disputa o drama biográfico Renoir, também resenhado aqui). É meio improvável, pois a Academia costuma ser bastante conservadora, e o filme em questão traz cenas fortes de sexo (lembra quando Michael Fassbender foi ignorado das indicações por Shame?).

Bom, vamos então à lista, em ordem alfabética:


12 ANOS DE ESCRAVIDÃO
A história real de um negro liberto que, em meados do século 19, foi raptado e novamente transformado em escravo, assediado e maltratado por seu dono durante 12 anos, é considerada por muitos como a grande favorita para levar os prêmios principais, como Melhor Filme, Diretor, Ator e Atriz Coadjuvante. O cineasta Steve McQueen, segundo dizem os críticos americanos, transcendeu todos os padrões já consagrados ao retratar a escravidão, fazendo um filme brutal e chocante, tal qual foi esse período. Se McQueen levar o troféu de Direção, será também o primeiro negro a lograr tal façanha. O que já se presume é que deverá ser a fita com o maior número de indicações em 2014.


ALL IS LOST*
O veterano Robert Redford já tem um Oscar em casa, mas foi pela direção do drama Gente como a Gente, da década de 80. Como ator, porém, ele nunca foi muito reconhecido, sempre tachado de galã e nada mais. Essa aventura, sobre um homem que, em meio a uma tormenta, tenta sobreviver sozinho num barco em alto-mar, pode lhe dar a consagração tardia e merecida. Redford, vale dizer, carrega o filme inteiro sozinho e com quase nenhuma fala.


BALADA DE UM HOMEM COMUM
Mistura de invenção e realidade, a vida de um cantor e guitarrista folk dos anos 60 chamado Llewyn Davis tem a assinatura dos irmãos Coen, queridinhos da Academia há muitos anos. Traz o astro pop Justin Timberlake numa atuação elogiada, mas que deverá ser ignorada pelo Oscar (num ano em que os papéis masculinos estão bem fortes). Quem pode receber algum tipo de reconhecimento é Carey Mulligan, como Melhor Coadjuvante. O roteiro dos Coen também pode se destacar.


BLUE JASMINE
Esse já está em cartaz no Brasil há algum tempo e a performance de Cate Blanchett, que foge um pouco da habitual "caricaturização" dos protagonistas de Woody Allen — conferindo-lhe mais tridimensionalidade e carregando nas nuances entre o drama e o cômico, a vilania e a simpatia —, pode ser recompensada com o Oscar de Melhor Atriz. A australiana é considerada uma das maiores intérpretes da atualidade, mas só foi agraciada com um prêmio de coadjuvante por O Aviador. Ela jamais esteve tão perto de levar o prêmio como Atriz Principal como desta vez.


DALLAS BUYERS CLUB*
Eu já havia falado sobre as enormes chances de Jared Leto abocanhar o prêmio de Ator Coadjuvante (neste post), e, a cada resenha publicada, essas chances parecem maiores. Leto é quase uma certeza, pois entre os papéis secundários do ano, poucos serão tão marcantes como o travesti morrendo de Aids interpretado pelo vocalista de 30 Seconds to Mars. Há quem diga que Matthew McConaughey, o ator principal, igualmente impecável, poderá faturar o Oscar de Melhor Ator também, mas, se for indicado, ele enfrentará fortes concorrentes na categoria.


ELA
Se neste ano a performance visceral de Joaquim Phoenix em O Mestre foi totalmente deixada à sombra pela reencarnação de Daniel Day-Lewis como Lincoln, em 2014 Phoenix poderá ter mais uma chance de levar o prêmio, pela ficção científica Ela, de Spike Jonze. O diretor é famoso por seus roteiros amalucados, o que não foge à regra aqui, com Joaquim Phoenix vivendo um escritor que se apaixona pela voz feminina de um software. Já levou prêmios importantes, como o National Board of Review e o prêmio dos Críticos de Los Angeles.


GRAVIDADE
Assim como Blue Jasmine, Gravidade é outro título que já está em cartaz no Brasil há algum tempo e que traz a segunda protagonista mais forte na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz, Sandra Bullock. Não há muito o que falar a respeito deste filme que já não tenha sido falado na época de seu lançamento, em outubro. O que se pode apontar é que o mexicano Alfonso Cuarón seja talvez o maior páreo, depois de Steve McQueen, para levar o Oscar de Melhor Diretor nesta temporada.


O LOBO DE WALL STREET
Depois do regular A Invenção de Hugo Cabret, Martin Scorsese está de volta às premiações, desta vez com uma sátira ao mundo dos negócios. Leonardo DiCaprio, novo muso do diretor de Touro Indomável, faz o papel de um corretor de ações que atinge o auge e a decadência nos anos 90, algo que envolve abuso de drogas e corrupção. Poderá receber indicações importantes, mas dificilmente vai sair ganhador, tendo no encalço temas mais sérios.


NEBRASKA
O cineasta Alexander Payne, outro queridinho da Academia, retorna com um drama mais conceitual e autoral. Além de Robert Redford, por All is Lost, há quem aposte na vitória de outro veterano das telas, Bruce Dern, fazendo um homem que acredita ter ganhado um prêmio milionário após receber uma propaganda pelo correio e, assim, despertando o olho gordo de seus familiares. Rodado em preto-e-branco e trazendo um tema bastante humano, é possível que receba indicações importantes, como Melhor Filme, Direção, Roteiro, mas é quase certeza ver Bruce Dern, já premiado em Cannes, entre os 5 Melhores Atores.  


TRAPAÇA
Por último, temos este novo trabalho de David O. Russell, ambientado nos anos 70, que pode render uma nova indicação (e até vitória!) para Jennifer Lawrence, num papel-chave porém secundário, provando que a Academia adora essa jovem atriz. Tal como O Lobo de Wall Street, Trapaça é outro filme em tom de sátira que mostra a sujeira por trás do mundo dos negócios, do FBI e da máfia, e traz no elenco alguns dos atores mais versáteis da nova geração, como Jeremy Renner, Christian Bale e Amy Adams. Levou os prêmios de Melhor Filme, Roteiro e Atriz Coadjuvante pelo Círculo dos Críticos de Nova York, o que lhe dá força total para a campanha pelo Oscar.


Observações:
Avisando que esta semana saem os indicados ao Globo de Ouro, considerado o maior termômetro do Oscar e o 2º prêmio mais importante de Hollywood. Contudo, os votantes ainda não viram 4 filmes já consagrados por algumas associações de críticos (Lone Survivor*Trapaça, O Lobo de Wall Street e O Hobbit: A Desolação de Smaug), podendo deixá-los de fora e, portanto, enfraquecendo a campanha dos estúdios por eles. Como tática de desespero, serão realizadas sessões de última hora aos membros da Associação dos Críticos Estrangeiros em Hollywood, que outorga o Globo de Ouro, ainda hoje, terça-feira.

E nesta quarta-feira serão anunciados os indicados ao Screen Actors Guild, que é talvez o mais importante prêmio dos sindicatos de Hollywood para se medir a temperatura do Oscar, uma vez que a maioria esmagadora dos votantes da Academia é composta por atores.

Entre os filmes não mencionados acima que podem surpreender, tanto no Globo de Ouro, no SAG ou no Oscar, estão: Philomena, Álbum de Família (com Meryl Streep, que é sempre indicada), Frances HaWalt nos Bastidores de Mary Poppins, A Última ParadaO Mordomo da Casa Branca, Capitão Phillips, A Vida Secreta de Walter Mitty e Antes da Meia-Noite.

Portanto, fiquem atentos a todos esses títulos nos próximos 2, 3 meses. O Oscar de 2014 deverá ser o mais disputado dos últimos tempos...
;)

*ainda não tem título oficial brasileiro
Fotos: reprodução

29 de out. de 2013

DICA DE FILME: O Passado (2013), de Asghar Farhadi


Muita gente está torcendo pela a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano que vem para o iraniano O Passado, de Asghar Farhadi, o mesmo de À Procura de Elly e A Separação, ambos consagradíssimos em Berlim. Desta vez, Faradhi rodou na França, com Bérénice Bejo num papel muito elogiado, premiado no último Festival de Cannes. Essa breve apresentação dos louros recém-colhidos serve apenas para reforçar a importância que a filmografia desse grande autor iraniano vem ganhando no cinema mundial da atualidade.

Com O Passado, Farhadi mostra que conseguiu de novo: fez um trabalho sério, denso e psicologicamente complexo. Se em sua obra anterior ele se propôs a analisar com minúcias a destruição de um casamento e de como isso afeta não apenas os cônjuges como também a filha do casal, aqui ele coloca o espectador perante uma separação sob um novo ponto de vista: os personagens de Bérénice e Ali Mosaffa já estão separados há algum tempo; este último sai do Irã e desembarca na França apenas para assinar o divórcio. Aproveita, porém, para matar saudade das filhas de sua ex-companheira, com quem não teve herdeiros. Em consequência, interfere nos pequenos problemas que as meninas, sobretudo a mais velha, têm com relação ao novo namorado da mãe.

É nesse conflito entre a enteada mais velha e o atual companheiro da mãe que surge o personagem de Tahar Rahim (protagonista do excelente O Profeta), que a princípio surge como uma espécie de antagonista e, pouco a pouco, vai mostrando um lado humano, conquistando a confiança e simpatia do público, mesmo quando parece extremamente rígido com seu pequeno filho, Fouad, outro personagem infantil complexo que vai sendo “domado” por meio da presença apaziguadora de Mosaffa (sim, mesmo este último, teoricamente, não ter mais nada a ver com a família que deixou na França, é ele quem vai transformando todos os envolvidos da história).

Impressionante como Farhadi é mestre em realizar esse tipo de reveses em suas tramas. Tanto Bérénice quanto Rahim são antipáticos aos nossos olhares na primeira metade da fita e, quando menos esperamos, seus comportamentos um tanto radicais ou explosivos vão nos parecendo mais compreensíveis, aceitáveis. Pequenas surpresas vão também sendo reveladas, num clima de suspense, e uma tentativa frustrada de suicídio da mãe de Fouad, ainda casada com Rahim, constantemente mencionada, serve como outro tema de impacto. Farhadi adora surpreender o público!

O final enigmático, outra marca-registrada na obra do diretor, encerra com maestria essa pequeno grande filme, radiografia veemente de muitas famílias modernas, aquelas que vão conservando laços irreversíveis, mesmo depois de separações (traumáticas ou não), e da França diversificada de hoje, marcada pela crescente imigração de asiáticos e africanos. Na sequência final, cheia de doçura e delicadeza, existe aquela sensação de esperança, mas também de que aquilo que precisava ser feito e que estava ao alcance de todos já fora perpretado. O passado, portanto, fica pra trás, o que importa é o presente.

O Passado estreia em 19 de dezembro nos cinemas do Brasil.

5 de out. de 2013

DICA DE FILME: Rio Violento, de Elia Kazan


Desolado, um homem explica como membros de sua família não resistiram às enchentes do rio Tennessee e foram levados para a morte junto de casas, animais, árvores e o que mais estivesse no caminho. O desastre natural acende pauta no Congresso, e o presidente Roosevelt, engajado com seu projeto de reerguer o país depois da Grande Depressão de 1929, o New Deal, resolve erguer barragens e uma hidroelétrica na região, anuindo uma proposta do partido republicano. O organismo encarregado é a TVA (Tennessee Valley Authority), que envia agentes ao cenário da hecatombe a fim de comprar as terras que contornam o rio. Tudo correria conforme planejado se não fosse pela resistência de uma senhora cabeça-dura, proprietária de uma ilhota situada no coração do Tennessee. A velha recusa-se a quitar a casa onde passou mais da metade da vida e onde seu falecido esposo encontra-se sepultado. Para tentar convencê-la a vender a terra, Chuck Glover, da TVA, chega à cidadezinha e só pensa em ir embora após concluir sua missão. Munido de incontáveis argumentos e de muita paciência, ele demonstra como as obras do governo podem gerar considerável avanço econômico no vale, melhorando as condições de vida dos habitantes. Entretanto, a sra. Ella Garth é irredutível.

Ambientado no inóspito extremo-sul americano dos anos 30, Rio Violento (1960) é um doloroso álbum de recordações do diretor turco Elia Kazan, um scrapbook no qual pôde grampear cenas que remontam toda uma época conturbada e repleta de cicatrizes profundas. À primeira vista, temos uma história traçada pelo antagonismo do progresso com a tradição, do valor material fazendo contraste com o valor sentimental.

No decorrer da fita, porém, um tema muito mais pungente se sobressai: o racismo. No passado, Kazan já se valera de tópicos semelhantes em filmes como Vidas Amargas (conflito de gerações), Boneca de Carne (localizado no Mississipi, ao sudeste dos Estados Unidos) e A Luz é Para Todos (sobre racismo, no caso, contra judeus). Em todos, Kazan realiza uma espécie de crítica aos costumes americanos, sejam eles causados pelo puritanismo extremo (principalmente em relação à sexualidade) ou por sentimentos herdados ao longo da História (por exemplo, a segregação sulista contra os negros, remanescente desde o fim da escravidão).

O cineasta escancara memorandos de sua vida nos Estados Unidos, na condição de imigrante, algo que também seria evocado muitas vezes por ele através de alguns personagens marcantes — Stanley Kowalski, de Uma Rua Chamada Pecado, se não me engano, veio da Polônia; os negros de O que a Carne Herda descendem dos “imigrantes forçados”, vindos da África; em Terra de um Sonho Distante, seu projeto mais pessoal, temos imigrantes turcos na Grécia, sempre permeados pelo sonho de chegar à América.

Para ele, o que vemos na tela é apenas um fragmento, há muito mais a respeito de uma pessoa ou de um fato do que se poderia presumir. Em vez de apostar as fichas num trabalho épico sobre um assunto exclusivo, ele prefere rodar uma série de pequenas histórias (muitas delas escritas por Tennessee Williams e Arthur Miller, seus autores favoritos) e distribuir elementos-chave que nos obrigam a refletir sobre a mais variada gama de temas e suas causas e conseqüências.

A ilha de Ella Garth personifica o passado, a pedra que faz emperrar as engrenagens da modernidade. Apesar dos apelos e das propostas justas de Chuck, a velha finge que não é com ela, ganhando apoio dos filhos, da neta e da pequena comunidade negra acolhida por ela em suas terras. Assim, a ilha concentra um simulacro de gueto, no qual os marginalizados, mantidos a distância da civilização, lançam olhares de suspeita para as novidades aportadas pela TVA. Entre Ella e Chuck está a jovem Carol, neta da sra. Garth, que logo se transforma na ponte para as negociações — a garota, no início, permanece atada ao pretérito, ao falecido marido, sendo nada menos que uma versão jovem de Ella; aos poucos, a resistência de Carol cede espaço à vontade de variar, de ser puxada por Chuck para um mundo radicalmente alheio àquele em que sempre estivera.

Lançado pela Classicline em setembro,
o DVD custa, em média, R$ 40
O romance que emerge entre ela e Chuck deflagra esse progressivo sentimento de mudança, e é com esse gancho que Kazan resolve dedilhar as facilidades do óbvio e do melodrama, sem, no entanto, assumir uma postura piegas. Mestre na arte de dirigir atores (sua experiência prévia no teatro se faz sentir em cada trabalho), ele coloca lado a lado Montgomery Clift, Lee Remick e Jo Van Fleet nos papéis principais, oferecendo-lhes a chance de brilhar mais do que nunca.

Já se falou muito acerca da performance inspirada de Jo Van Fleet, que, aos 46 anos de idade e envelhecida com maquiagem especial, arrasa na pele da octogenária Ella Garth, todavia vale sublinhar o espantoso envolvimento de Monty Clift e Lee Remick com esse projeto. Em Rio Violento, Clift, que andava tendo problemas com o alcoolismo, encontra um personagem definitivo e marcante. Lee Remick, grande atriz, hoje esquecida, interioriza as emoções de sua Carol de tal forma que com um simples gesto consegue transpassar as dúvidas e a angústia que tanto afligem sua consciência; os luminosos olhos azuis de Lee perdem-se no infinito, parecem querer expressar vontades indizíveis, estão desapontados com a atualidade e temerosos quanto ao futuro.

O elenco é focalizado pelas lentes do diretor de fotografia Ellsworth Fredericks, que usa e abusa da profundidade de campo, dando a impressão de mesclar os atores com a paisagem rural, pincelada por cores ocres e acinzentadas e castigadas pelo clima ora brilhante, ora sombrio e chuvoso do Tennessee.

O drama sucedido em Nova Orleans há quase dez anos, quando o furacão Katrina arrasou a cidade, rompendo diques de segurança no rio Mississipi e provocando enchentes devastadoras, ratifica o valor de contemporaneidade de Rio Violento. A maior tragédia natural sofrida nos Estados Unidos serviu para denunciar ao mundo os altos índices de pobreza na população majoritariamente negra da Luisiana, e trouxe de volta o fantasma da sra. Ella Garth com toda sua desconfiança quanto aos projetos de crescimento do governo.

O filme, de fato, não envelheceu nada, ao contrário: as plateias de hoje talvez possam apreciá-lo com mais sensatez que os espectadores originais. Devemos lembrar que ele foi exibido pela primeira vez num contexto social bem diferente de hoje, quando os conflitos raciais ganhavam um clímax de extrema violência. E também há o fator político, que sofreu transformações radicais na segunda metade do século 20. Servindo-se de um acontecimento passado, Elia Kazan ganha, neste caso, ares de profeta, faz de sua obra um marco artístico hollywoodiano (ele possui um currículo singular, impecável, com cara de europeu). A boa notícia que fica é que a Classicline acaba de lançar Rio Violento em DVD no Brasil (em média R$ 40). Vale a pena mergulhar nesse "tesouro perdido" de Kazan.

22 de ago. de 2013

DICA DE FILME: Violência Gratuita, de Michael Haneke

Representante máximo do cinema-choque europeu, ao lado do francês Irreversível, Violência Gratuita despontou na carreira do austríaco Michael Haneke como o filhinho querido, aquele que enche o papai de orgulho por seu desempenho ímpar de conquistas e estarrecimento por onde quer que passe. Isso antes de A Professora de Piano, Caché, A Fita Branca e Amor, o que demonstra um crescente na sua maestria de narrar uma história.

Surgido da necessidade em expor uma sociedade enfraquecida pela delinquência juvenil, o filme rompe a tradição de escalar indivíduos corrompidos por uma infância difícil e materialmente desprovida como os monstros sanguinários, sem nada a perder, que tanto assombram a classe média, confinada em habitações luxuosas e confortáveis, fingindo que nada está acontecendo e ficando atônita com o sensacionalismo dos telejornais. Aqui, o horror vem da própria high society, em que jovens, na impressão de terem tudo que almejam, saem em busca de novos métodos de passatempo, o que é rapidamente encontrado nos mais variados atos ilícitos, como o consumo de drogas, brigas de rua, estupros, pequenos assaltos e por aí vai. Uma coisa leva a outra. Daí brotam algumas comparações óbvias com a primeira metade do cult Laranja Mecânica, não apenas tangentes ao problema da violência entre os jovens que roubam, espancam e matam por prazer, mas também em relação aos objetos narrativos que Haneke ordena ao longo de quase 100 minutos de puro sadismo: o uniforme branco dos agressores, a música clássica na abertura, o taco de golfe como arma, etc.

Uma família vai passar alguns dias em sua bela residência campestre e logo vira refém e é torturada por dois estudantes que gozam de férias na região. O ponto de partida parece suceder as fitas de horror B que simbolizaram as décadas de 70 e 80, quando o gênero era praticado, então, como meio de protesto político, crítica aos costumes contemporâneos, tudo numa época sacudida, em que a violência, de fato, começou a ser banalizada e os cineastas independentes — em especial nos Estados Unidos e na Itália — usavam e abusavam de cenas grotescas, verdadeiros banquetes de sangue. Mas, tão logo os vilões de Haneke começam a agir, transparecendo poses educadas e vocabulário culto, percebe-se que o filme em questão transcende o gênero, invadindo a tela com o mais puro realismo dramático da escola bávara.

O terror alimenta maior intimidade com a fantasia, o que não é o caso. Violência Gratuita não exagera em nada, porém é no mínimo insólito assistir a um casal inocente e a seu filho serem atacados por dois rapazes abastados em vez de dois brutamontes sem dentes ou algum mascarado maltrapilho (lembrou de Amargo Pesadelo?). Alguns podem rememorar Festim Diabólico, de Hitchcock, mas ali a bestialidade não era explícita, a sequência de assassinato reduzia-se a poucos segundos, inserida logo no início, tendo todo o resto da trama voltada para as tentativas de acobertamento do crime. Em ambos, porém, encontramos vilões refinados, bonitos e de aparência distinta, ponto chave para expandir o caráter chocante da composição.

A cada instante, o nível da agressão na película aumenta, oscilando entre o físico e o psicológico, testando os nervos das três vítimas da história. A impotência de um pai torna-se pretexto para o diretor utilizar o velho clichê da mulher que desafia o monstro (de onde surgiu a ideia de que os filmes de terror são todos misóginos, uma vez que a maioria deles acaba com a mulher derrotando o vilão?), mas a mãe, embora enfrente seus temores com estoicismo, ignora por completo as surpresas do script, superousado se comparado às produções americanas, que costumam poupar crianças e animais, convergindo quase sempre a um happy end. De qualquer modo, Haneke deixa claro mais de uma vez que, junto de seu alerta sobre a crise da nova geração, tudo não passa de um filme. Os torturadores às vezes olham diretamente para a câmera e “conversam” com o espectador, e existe até mesmo um ambicioso recurso estilístico que faz a fita voltar e corrigir um erro na vigilância dos perigosos antagonistas.

Assim como faria depois em Cachè, Haneke promove um exercício de confiança mútua entre o casal protagonista ante a ameaça, seja ela explícita ou misteriosa, testando os valores matrimoniais numa situação de perigo. Em suma: no lugar de cumplicidade, as fitas de vídeo que perturbam o casal de Caché acendem atritos e revelam a falta de solidez na relação marido-mulher; em Violência Gratuita, a tortura faz diminuir Georg, o pai, quase por completo, sendo ele incapaz de reagir, inclusive quando o bandido ordena que sua esposa tire a roupa. É a humilhação na sua forma mais integral, como se o público apontasse o dedo para o sujeito e o chamasse de “covarde” a cada cinco minutos. Mas o que mais ele poderia fazer? Reagir e brincar com a sorte? Sim, afinal — nós sabemos —, muitos pais arriscariam a própria vida para salvar sua família, confirmando, portanto, a debilidade de Georg como protagonista e transferindo a Anna o papel de autêntica heroína da história.

É irônico notar que todo esse esforço para combater o mal parte de um problema tão idiota, uma vez que os dois bandidos estão ali sem nenhum motivo aparente, daí a gratuidade insinuada no título brasileiro. O recado é perigoso, mas inegável. Ficar aprisionado e esperar o fim do pesadelo pode ser a pior alternativa, principalmente quando não notamos que o problema também tende a nascer em nossos lares. Não há garantia de que um jovem de futuro promissor não possa de repente se tornar um assassino frio e cínico; os psicopatas não demonstram sintomas.

Além disso, o filme está aí para reforçar a ideia de que não devemos confiar em estranhos, até os mais bem-apessoados. Estamos numa viagem sem volta, a desconfiança é questão de sobrevivência. E vale dizer que o próprio Haneke — gabando-se da qualidade de auteur, e não de um mero diretor — incumbiu-se de reaproveitar o projeto em Hollywood (o remake foi encabeçado por ninguém menos que Naomi Watts), unicamente para assegurar-se de que outro colega não perdesse o enfoque niilista do script original. Esse é um jeito fácil de vender seu produto ao maior número de espectadores possível sem arruinar sua postura autoral; a violência, para ele, é gratuita, mas a sociedade não deixa de pagar para vê-la.

18 de jul. de 2013

CINEMA: Um tributo ao grande e inesquecível comediante Harold Lloyd


Essa, com certeza, vai fazer muita gente torcer o nariz ou simplesmente ignorar a postagem: resolvi fazer uma pequena homenagem ao grande ator de comédia Harold Lloyd, que, na década de 20, foi um dos astros mais populares de Hollywood, sendo inclusive um dos 30 e poucos fundadores da Academia que outorga o Oscar. Muita gente tem um preconceito danado com as películas mudas, achando que são chatas e arrastadas. Ora, tem muita coisa feita hoje em dia que me dá essa mesma impressão (achei a 2ª metade de Os Miseráveis a coisa mais entediante dos últimos tempos). Quem diz algo assim, porém, não deve ter tido a experiência de conferir algumas das mais consagradas comédias do período mudo, no qual se destacam até hoje Charles Chaplin e Buster Keaton.

Se Chaplin e Keaton permanecem dois nomes pra lá de consagrados, mesmo pra quem sequer sabe citar o nome de um de seus filmes, Harold Lloyd infelizmente caiu na obscuridade e só é lembrado pelos cinéfilos mais "doentes", que é o meu caso (rs). Nunca escondi de ninguém minha obsessão pelos clássicos, em especial os americanos pré-anos 60. É quase um vício, não gosto de ficar muito tempo sem ver ou rever um filme em P&B, com aqueles astros e estrelas com ar divino, como se jamais tivessem existido fora das telas - hehe

Recentemente, fiz uma espécie de "festival Harold Lloyd" em casa, assistindo a cerca de 10 filmes dele — os mais importantes —, de O Homem Mosca (foto que abre o post) a Cinemaníaco (o único falado da safra, de 1932, mas não menos engraçado). Foi uma sucessão de risadas, acontecimento raro quando assisto às comédias modernas. E é impressionante como as tramas, frequentemente debochando do ritmo de vida urbano, o consumismo frenético, o trânsito caótico, o transporte público lotado, a desigualdade social, etc., permanecem tão atuais. E olha que esses filmes têm entre 80 e 90 anos!


Lloyd combinava bem aquela densidade psicológica de Chaplin, além de ter sido um verdadeiro acrobata em cena, como Keaton. Era uma mistura bem-sucedida: atrapalhado nos gestos, aliado a um look dândi, ou "mauricinho", com roupas ajustadas, chapéu panamá e, claro, os óculos arredondados (sua marca-registrada), pode-se dizer que foi um protótipo de Clark Kent. E Lloyd, mais tarde, serviria de inspiração para grandes humoristas, como Steve Martin e Woody Allen, que até tomou emprestados os óculos de aro grosso, deixando clara e notória sua profunda admiração.

Entre seus melhores trabalhos destaco O Calouro, no qual ele tenta ganhar popularidade na universidade como jogador de futebol, embora seja péssimo no esporte, e Sogra Fantasma (foto abaixo, com os cabelos arrepiados), no qual, por meio de uma série de confusões, ele acredita ter assassinado a insuportável sogra com uma alta dose de clorofórmio, mas ela não morre e, sonâmbula, aparece no meio da noite com sua enorme camisola branca, fazendo-o acreditar que é uma assombração. Hilário!
 

Na vida real, Lloyd era também um bom-moço, muito religioso e benevolente, ficou casado com a mesma mulher ao longo da vida, uma atriz com quem dividiu a cena em alguns de seus filmes. Teve três filhos: o mais velho carregava seu nome, Harold Lloyd Jr., e também arriscou uma carreira no cinema, contudo sem o menor êxito. Este primogênito era assumidamente gay, e, numa circunstância bastante incomum pra época, seu pai o aceitava muito bem, havia uma boa relação entre eles.

Antes de sucumbir ao câncer de próstata, aos 77 anos, Lloyd pôde testemunhar um revival de sua obra em diversos festivais mundo afora, chegou a ganhar um Oscar honorário por sua enorme contribuição ao gênero cômico e seus filmes voltaram a ser exibidos na tevê, com grande audiência nos Estados Unidos.

Poucos meses depois que o pai morreu, Lloyd Jr. também adoeceu gravemente e faleceu, alguns dizem de tristeza por ter perdido não apenas um pai, mas um amigo com quem podia desabafar (aparentemente, ele sofria de depressão). Pela primeira vez, com sua partida, o homem que tanto nos fez gargalhar causou tristeza em alguém.

Se você é daqueles que adora bisbilhotar filmes antigos e quer saber mais sobre esse período tão rico que foi o do cinema mudo, pode confiar: essas comédias de Harold Lloyd (ou Haroldo, como ficou conhecido no Brasil nos anos 20) são excelentes passatempos, cheios de reviravoltas e gags inteligentes, fundo sempre romântico, deixando aquela sensação gostosa no espectador. E nada de juízo antecipado, os clássicos podem, sim, ser entretenimento de primeira categoria.
Fica a dica!

Para baixar:
Como a filmografia de Harold Lloyd já, praticamente, caiu em domínio público (isso acontece com toda obra cultural com mais de 80 anos), uma alternativa pra quem não é muito ligado a coleções de DVDs e prefere fazer o download dos filmes, segue o link de um torrent com mais de 10 discos em formato mkv (é só clicar aqui). São mais de 80 títulos, entre os quais longas e curtas-metragens, extras raros e documentários, tudo com legendas em vários idiomas, inclusive português.

3 de jul. de 2013

CINEMA: Tabu (2012), de Miguel Gomes


Dificilmente filmes atuais conseguem surpreender pela inovação narrativa, uma vez que tudo nos traz um certo déjà vu, cabendo a responsabilidade da trama ser a grande surpresa da obra. E, convenhamos, muitos roteiristas parecem sair dos trilhos quando querem nos surpreender com desfechos cheios de reviravoltas, chega a ser maçante e até pouco surpreendente, pois já deduzimos as coisas mais absurdas do mundo quando vamos ao cinema esperando ver um filme que, dizem, traz um final-surpresa, certo?

O português Miguel Gomes, na contramão, revisitou o passado, assim como Michel Hazanavicious o fez com O Artista (o mais bem-sucedido filme silencioso dos últimos 80 anos) ou Pablo Berger no interessantíssimo mas pouco badalado Blancanieves, que, aliás, também estreia este mês no Brasil. Gomes, porém, não quis fazer uma simples e taxativa homenagem ao cinema preto-e-branco e mudo, e sim contar uma história fincada a princípio no presente, com ressonâncias advindas de longas décadas passadas.

Dividido em 2 partes, Tabu — pra mim, um dos 3 melhores filmes de 2012, ao lado do chinês Uma Vida Simples e do franco-austríaco Amor — acompanha Pilar na tentativa de entender o que parece ser uma senilidade misturada à depressão da vizinha Aurora. Esta última vive com a empregada, Santa, a quem acusa de lhe querer o mal por meio de "macumbas e outros feitiços", sua vida se restringe a perder grandes quantidades de dinheiro num cassino. Ela está falida e doente, praticamente esquecida pela família.

Tudo é muito bem-conduzido até ali, mas é na segunda metade da história, relatada por um homem misteriosamente ligado a Aurora e ambientada na África colonial, que a beleza do filme recebe seu polimento no maior esplendor. Nenhum diálogo é proferido, vemos somente os atores mexendo os lábios, como num filme mudo. Tampouco há intertítulos, mas a história está ali, narrada em off pelo homem misterioso, cuja biografia vai rapidamente se desanuviando para o espectador.

O canto dos pássaros, uma música executada por uma tribo, o barulho das águas, o motor de um caminhão: a trilha ideal para embalar a história de amor que se desenvolve naquela paisagem desoladora e ao mesmo tempo magnífica de Moçambique. E é na construção desse romance que chegamos ao clímax e à saciedade dos mistérios salpicados na primeira parte, sobre as origens do grande sofrimento que Aurora parecia emanar e querer esquecer.

Uma obra-prima que merece ser vista e revista com muito carinho!

Obs: Tabu estreou nos cinemas brasileiros no último fim de semana. Confira sua programação local.

17 de jun. de 2013

DICA DE FILME: Dentro da Casa, de François Ozon


Assim como Brian de Palma, o cineasta francês François Ozon jamais escondeu sua admiração pelo britânico Hitchcock, já tendo realizado alguns suspenses que vulgarmente classificaríamos de “hitchcockianos”, como Sob a Areia e Swimming Pool. Ao contrário do americano, porém, Ozon não cai na armadilha de recriar tramas similares, facilmente identificáveis. Ele apenas dá algumas pistas de onde vieram suas influências mais marcantes, para que o próprio espectador possa se identificar também.

Em Dentro da Casa (2012), a maior menção a Hitchcock é o plano derradeiro, com inúmeras janelas de um prédio sendo analisadas pelos dois atores principais, cada um levantando hipóteses sobre seus habitantes e o que eles estariam fazendo naquele momento. É evidente que se trata de uma alusão a Janela Indiscreta. O roteiro intricado de Dentro da Casa também examina o grau de perversão que as pessoas são capazes de atingir para satisfazer um voyerismo cada vez mais comum.

Um professor de literatura chamado Germaine pede a seus alunos que façam uma redação sobre como têm passado o fim de semana. Praticamente todos entregam narrações vazias e chatas, exceto Claude Gracía, que imediatamente fisga seu mestre ao relatar de forma jocosa os dias que passara com a família de um colega de classe, Rapha Artole. O modo como ele descreve certos pormenores e conduz sua narrativa para um insolente “(continua)”, como se a tarefa de casa não estivesse de todo concluída e, sim, fosse uma espécie de novela em capítulos, intriga Germaine, que enxerga, com certa inveja, o talento de Claude, estimulando-o a continuar sua história, ainda que não aprove totalmente o deboche quase subliminar com que ele fala da família Artole.

Claude, no entanto, diz que não consegue inventar nada, precisa vivenciar as cenas para, em seguida, descrevê-las. Para isso, precisa infiltrar-se no coração da família, uma “família normal (...) de classe média”, como ele mesmo classifica, uma vez que seu passado é descrito como triste, pobre e solitário (na verdade, ao decorrer da história, não sabemos o que é real ou invenção sobre o background de Claude, apesar de uma única cena que o exibe cuidando de seu pai inválido; mas Ozon parece brincar com nossa confiança ao colocar sequências que, a princípio, julgamos reais e, depois, são desmentidas).

Logo, Germaine (e o público) se vê manipulado por seu próprio pupilo. Este sabe que o professor está ávido por saber mais sobre os personagens que ele descreve com fascínio e desprezo na mesma proporção. Qual o destino daquelas pessoas? O que farão elas? Por que foram alvo de toda essa armadilha?

Ozon constrói com maestria um clima de mistério, fazendo com que também fiquemos ávidos para que ele continue frequentando e enganando os Artoles, tudo para que ele possa nos dar em troca pequenas narrativas capitulares desses personagens tão sem-graça e comuns, mas que ele é capaz de torná-los inesquecíveis, tal como Dostoievski ou Flaubert fizeram na disciplina ministrada por Germaine.

É curioso também como Ozon faz menção à invasão chinesa na cultura ocidental: a esposa de Germaine, vivida pela sempre impecável Kristin Scott Thomas, trabalha numa galeria de arte e se prepara para uma mostra de uma artista chinesa, especializada em fotografar o céu. O patriarca dos Artoles se vê diminuído em seu trabalho por conta de um empresário chinês que frequentemente deve buscar no aeroporto e bajular, levando a restaurantes e clubes noturnos. “A população da China”, diz ele, “aumenta em 5 milhões por ano”. Seria essa nação uma fábrica de vidas banais, matéria-prima para que Claude transforme em novas histórias tão tensas e fascinantes? Não é preciso ir muito longe, ele pensa, basta observar uma pessoa na rua ou um prédio em frente ao parque para que ele imediatamente penetre num lar qualquer e faça seu exercício de voyerismo.

Obs: Dentro da Casa permanece em cartaz em algumas cidades brasileiras, seu lançamento em DVD está previsto para breve.

24 de mai. de 2013

CINEMA: Meus 10 ganhadores da Palma de Ouro favoritos (2ª parte)


Enquanto a Palma de Ouro deste ano não sai, continuemos com mais 5 filmes que fizeram história em Cannes, dando prosseguimento à postagem anterior. No total, são os meus 10 favoritos a ganhar o prêmio máximo do Festival nas últimas 6 décadas.

Tenho certeza de que muitos de vocês não viram os 5 filmes listados anteriormente, não é mesmo? Embora famosos, ainda estão para ser descobertos pelas gerações mais novas, o que não é difícil hoje em dia, com a cada vez maior distribuição de clássicos em DVD no Brasil e os canais de tevê paga (sem falar na internet, que pôs em prática o termo globalização).

Assim sendo, confira mais 5 Palmas de Ouro que curto e recomendo. São 5 filmes que entraram para os meus favoritos e que talvez entrem para os seus...



Eu amo as películas orientais, e Adeus, Minha Concubina (1993) é a quintessência das produções chinesas: traz cenários, fotografia e figurinos deslumbrantes (alguém aí lembrou de Zhang Yimou?). É também uma pequena aula de história, sobre como a famosa ópera de Pequim foi se tornando o que é hoje ao longo dos tempos, palco de peças visualmente impecáveis e componente mitológico de uma cultura milenar. Não podemos esquecer: essas peças são constituídas por pessoas, portanto, há sofrimento, esforço e disciplina por trás disso tudo. E também existe amor. O amor platônico, a transformação da personalidade e as desilusões fazem parte desse jogo.

Aqui, acompanhamos a trajetória de uma trupe de atores e cantores chineses no começo do século 20, desde a infância, marcada pela rigidez na preparação artística dos meninos, até a consagração do grupo. O diretor Chen Kaige vai tecendo o enredo em meio a conflitos políticos (e Deus sabe como houve conflitos na China!), que servem de pano de fundo para as antigas histórias românticas, encenadas pelos personagens toda noite no palco. Ao contrário do que muita gente pensa, não enxergo o filme como uma bandeira do movimento gay, mesmo que a trama gire em torno de um ator (lembre-se de que na dramaturgia oriental, ao menos antigamente, somente homens podiam atuar, inclusive fazendo papéis femininos) apaixonado por seu colega de cena, rivalizando com a esposa deste. Brilhante estudo psicológico sobre o sentimento impossível e a humilhação, o auge e a decadência. Em suma, lindíssimo e trágico.


É quase impossível encontrar alguém que não goste de pelo menos um filme de Quentin Tarantino. A cada lançamento seu, o público corre para dar algum parecer, seja para transformar o filme num novo objeto de culto (como a saga Kill Bill) ou para dizer que a novidade não é lá essas coisas (como o terror À Prova de Morte, assumido pelo próprio autor como um de seus deslizes). Não tem como um cinéfilo não se render ao cinema de Tarantino, ele mesmo um cinéfilo doente e assumido, que a cada novo trabalho faz uma colagem de referências, todas da época em que trabalhava numa videolocadora nos anos 80, antes de começar a carreira de roteirista e, em seguida, se tornar num dos mais brilhantes diretores americanos da atualidade.

Não tem jeito. Pulp Fiction (1994) é Tarantino em sua melhor forma, fazendo um belo pastiche dos filmes B de gângsteres dos anos 70 e resgatando a carreira de um dos maiores astros daquela época, John Travolta, que, dez anos antes, estava praticamente mendigando papéis péssimos em filmes péssimos. Tarantino, sim, é mestre em pegar coisas consideradas ruins do passado e remodelar, modernizar o material, até transformá-lo num tesouro. É o Toque de Midas de um pequeno gênio, e Pulp Fiction, pra quem não viu ainda, é ouro puro. E dinamite também.


Visto como um pecado impensável tanto pela Bíblia quanto pelo Alcorão, o suicídio é posto em debate em Gosto de Cereja (1997). Mas não vá pensar que o elenco mínimo deste belo filme fica só discutindo a esse respeito para, no final, bater o martelo sobre quem tem razão e quem está equivocado. Na verdade, o motorista solitário que busca em desespero alguém para ser cúmplice de seu suicídio não expõe qualquer motivação; ele se recusa a explicar por que autoaplicou tão drástica sentença. Ele sai atrás de uma alma que não veja essa, digamos, resolução de consciência (ou falta dela) com reproche ou censura, que simplesmente a aceite com naturalidade. O que se tem até pouco mais da metade da fita é uma objetividade crucial nas falas: o sr. Badii lança a proposta, os estranhos recolhidos por ele na estrada de um Irã em constante reconstrução e expansão escutam e, mais tarde, finalizam suas decisões, isto é, aceitam ou não a tentadora oferta: uma boa soma em dinheiro para, na manhã seguinte, enterrar o sujeito numa cova previamente cavada por ele ou, no caso de arrependimento, ajudá-lo a sair do buraco.
 
Falar de Gosto de Cereja é falar de contrastes, sejam eles na conduta técnica do enredo ou na forma como os personagens afrontam o polêmico assunto tratado, cada qual reagindo de uma maneira distinta. O soldado-raso, o seminarista e o taxidermista exibem respectivamente medo (a inexperiência da juventude), ponderação religiosa (idade adulta, vinculada à fé islâmica) e sabedoria (uma sensatez somente adquirida com a idade e com as próprias vivências, sobretudo no ramo científico). É para ser visto e revisto. E ser refletido.


Sabe aquele tipo de filme que perturba? Pois o romeno Cristian Mungiu soube fazer isso com precisão cirúrgica ao narrar a história de 2 amigas, uma delas grávida, que comem o pão que o diabo amassou ao tentar realizar um aborto numa espelunca de hotel, pelas mãos de um carniceiro sem escrúpulos, ao mesmo tempo em que uma delas precisa bater ponto na festa de aniversário da sogra.
 
Para assistir a 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007) e compreendê-lo melhor, é necessário ter um conhecimento prévio sobre a história da Romênia e o contexto no qual a trama é ambientada, os tenebrosos anos 80. Naquele período, o ditador Nicolau Ceausescu (e sua esposa, Elena, uma víbora) colocou em prática uma lei que mais ou menos obrigava as mulheres a procriarem feito cadelas para, obviamente, aumentar a população e, no futuro, ter mais mão de obra. O problema é que o país era extremamente pobre, comunista, e muitas mães acabavam abandonando seus recém-nascidos, e a Romênia passou a ter mais orfanatos do que hospitais. Interromper a gravidez era, portanto, um crime de pena capital. Mas a jovem grávida do filme de Mungiu é universitária, solteira, e, em vez de abortar seus projetos profissionais, prefere abortar o bebê. Sua amiga, a verdadeira protagonista, faz de tudo para ajudá-la, passando pelos maiores maus bocados do filme, tudo espiado por uma câmera inquieta, que dá um tom quase documental à obra e nos deixa ainda mais inquietos do que ela. As sequências são frias, cruas, impressionantes e claustrofóbicas, à moda dos irmãos Dardenne ou Lars Von Trier. Um soco no estômago que dificilmente sairá de sua memória, assim como não saiu da minha.


Não poderia deixar de incluir este. Assumo que sou fã de Michael Haneke há algum tempo (sua 1ª Palma de Ouro, A Fita Branca, quase entrou neste Top 10). Amor (2012) é provavelmente seu projeto mais terno e, ao mesmo tempo, sombrio. Como pode isso?

Longe de ser rotulado apenas como um conto romântico, como o título sugere, Amor é o retrato mais duro da velhice na telona nos últimos anos (sim, eu vi Longe Dela, rs), de como a decadência física é algo que está aí e deve ser enfrentada em todas as famílias, em todas as casas. A lógica é que algum dia iremos passar por tudo isso também. Quer coisa mais triste?

Um casal de idosos vê sua calma e tranquila aposentadoria ser abalada pela doença, a partir dali é uma sucessão de fatos cada vez mais deprimentes, mas é o laço afetivo que mantém os impecáveis Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, duas sumidades do cinema francês, unidos. A cena inaugural já alerta para o final trágico. A eutanásia é colocada em debate, claro, mas Amor é em especial um filme sobre dedicação e companheirismo, sobre como duas pessoas que se amam podem ainda fazer de tudo uma pela outra, quando uma precisa da outra. No entanto, poderia uma viver sem a outra? Haneke parece dizer que não, e fica claro que seu filme é uma provocação às gerações cada vez mais individualistas e desinteressadas ao sofrimento alheio. Nada que faça ensopar lenços de papel — sentimentalismo hollywoodiano passa longe — no entanto é uma baita lição de... amor.

22 de mai. de 2013

CINEMA: Meus 10 ganhadores da Palma de Ouro favoritos (1ª parte)


O Festival de Cannes está acontecendo atualmente na Riviera Francesa, como não resisto falar de cinema, uma de minhas especialidades (rs), resolvi fazer uma listinha com meus 10 vencedores da Palma de Ouro prediletos. Quem me conhece sabe que adoro uma listinha – rs – e ainda mais se tratando de filmes.

Meu critério, claro, é pessoal, mas adianto que estou excluindo filmes anteriores a 1955, quando o Festival outorgava o chamado “Grande Prêmio” aos melhores títulos exibidos, e não a Palm d’Or, como sua maior distinção é conhecida há quase seis décadas. Também não quis colocar um filme à frente de outro, como se um fosse melhor que outro, então a ordem é cronológica, do mais antigo ao mais recente.

Como cinéfilo doente, posso adiantar que já assisti à grande maioria dos vencedores do Festival, inclusive algumas raridades, como A Bossa da Conquista, O Espantalho e O Assalariado (nos bons tempos do Telecine Classic... saudades), filmes que nem acho lá essas coisas, contudo, por “obrigação”, acabei vendo, por isso podem ter certeza de que são 10 escolhas conscientes.
Vamos lá?



Como deixar esta joia de Fellini de fora, sendo inclusive o 1º filme a levar a Palma de Ouro por unanimidade. Quando se pensa em A Doce Vida (1960), vem direto à nossa mente Anita Ekberg na Fonte de Trevi, erguendo os braços sob a água, lânguida e sensual, aos olhos de Mastroianni, certo? Mas a história não é apenas sobre uma beldade do cinema fazendo suas excentricidades na capital italiana perante um jornalista de fofocas (isso é apenas um trechinho de nada numa fita monumental). Além de ser o primeiro ensaio oficial de Fellini ao surrealismo, rompendo com o neo-realismo de seus trabalhos anteriores, A Doce Vida é também uma radiografia completa do tédio nas relações e da falta de controle da classe média alta italiana, nos áureos tempos de reconstrução pós-2ª Guerra e na atmosfera de incertezas da Guerra Fria. Naquele mesmo ano, Antonioni tentou abordar o mesmo assunto com o belo e enigmático A Aventura (às vezes, penso que este é ainda melhor, embora tenha sido vaiado na ocasião), mas quem levou o prêmio (e até foi indicado ao Oscar) foi seu conterrâneo. Fellini — não tem jeito — sabia transformar qualquer tema num circo, porém um circo de alto padrão.


O Brasil não tem tradição de produzir grandes obras cinematográficas, sempre digo isso. Por mais que eu me esforce, vendo os principais títulos da filmografia tupiniquim, raramente encontro algo que me entusiasme. Enquanto o Ministério da Cultura inscrever bobagens como a biografia de Lula e 2 Filhos de Francisco para disputar uma indicação ao Oscar, jamais veremos a estatueta dourada de perto. O Pagador de Promessas (1962) é uma exceção: pouco visto aqui, mas cultuado lá fora, foi um marco do cinema nacional e já denunciava uma certa intolerância religiosa ao narrar a história de um padre que impede o personagem-título de entrar na igreja para agradecer uma graça atendida, depois que seu burro escapa da morte. Acusado de paganismo por causa do motivo da promessa, o jovem permanece em frente à igreja e se desespera com o medo de ser punido pelos santos caso não cumpra sua missão até o fim. Um conto atemporal, sob a excelente direção de Anselmo Duarte, clássico instantâneo para ser estudado pelos demais cineastas e roteiristas brasileiros. Aprendam com o passado, gente!


O mais interessante sobre Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy, é que se trata de um musical, só que aparentemente não traz nenhuma canção! Não no sentido usual do termo, é óbvio. O que se vê (e se escuta) é uma extraordinária paleta de cores esparramada na tela, acompanhada por diálogos cantarolados. Sim, o filme é integralmente cantarolado, porém há pouquíssimos refrões ou melodias repetitivos: um simples “bom-dia” ou “estou com fome” são convertidos em árias, seguidos por arranjos do compositor Michel Legrand. Encanta ainda o visual multicromático da fita, com interiores e figurinos de tons chapados e desenhos geométricos, tudo meio estilizado, meio retrô (ou seja, bem "a cara dos anos 60").

Cheia de referências aos musicais clássicos de Hollywood, como Cantando na Chuva, Sinfonia de Paris e Amor, Sublime Amor, a obra tende a ser uma reinvenção do gênero tanto pela ousadia quanto pelo formato. Isso não se restringe tão-somente à trilha cantarolada, Demy possuía outros artifícios inusitados nas mangas, como a cena em que os pombinhos parecem “flutuar” na calçada, avançando sem mexer as pernas, ou a despedida de Geneviève e Guy na estação de trem quando este parte para a Guerra na Argélia: nada de usar clichês como fumaça em excesso ou corridas desesperadas, a câmera é subjetiva, afasta-se com o trem, a observar a garota tristonha cada vez menor no horizonte. Logo, o mundo colorido de Demy é inundado pelos tons cinzentos e negros, desbotando o destino de seus personagens. Encantador!


Um dos maiores filmes sobre a Guerra do Vietnã — veja só! — foi baseado num livro do século 19. Naturalmente, a trama foi adaptada, mas a essência está toda lá, e não é sobre a guerra em si, mas, sim, um estudo sobre o homem e sua incapacidade de ficar em paz com os outros. Marlon Brandon, monstro-sagrado de Hollywood, toma emprestada a fala do coronel Kurtz, de Coração das Trevas (Joseph Conrad), para descrever a visão que ele tem do mundo: “o horror, o horror”. Apocalypse Now (1979), a obra-prima de Francis Ford Coppola (digo isso porque coloco este acima de Poderoso Chefão, viu?) mantém o clima de mistério, de que algo de ruim está por vir, mas toda vez que revejo sinto que esse “algo ruim” já está infiltrado desde a primeira sequência, misto de sonho e realidade do personagem de Martin Sheen; o mundo não para de gritar, a violência e a loucura estão entranhadas nos seres humanos de tal maneira que as ruas de Saigon, mostradas ali no comecinho, bem poderiam ser as ruas de São Paulo ou do Rio de Janeiro. O que nos resta? Kurtz estava certo: o horror, o horror.


Admito que não sou muito fã do Emir Kusturica. Seu Mentiras de Guerra, que também levou uma Palma de Ouro nos anos 90, é superentediante, talvez careça de uma revisão minha, sei lá. Mas Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (1985) é o tipo de filme que emociona, faz pensar e, sobretudo, faz parar de reclamar um pouco da vida. Essa coisa de “criar uma farsa em tempos conturbados” para não fazer o outro sofrer já tinha sido magistralmente trabalhado no tcheco A Pequena Loja da Rua Principal (assista se puder!). E como esquecer de A Vida É Bela? Mas Kusturica não fez feio com esta pequena obra-prima sobre um rapaz que é enganado após seu pai ser enviado a um campo de prisioneiros políticos, durante a ditadura comunista. A família conta ao rapaz que seu pai foi fazer uma viagem a trabalho, mas o espectador, que conhece a verdade, sofre por ele. Fica, então, o debate se é correto ou não criar essa mentira, que um dia será contestada. É mais ou menos como quando alertamos uma criança de que o papai ou a mamãe fizeram uma viagem, quando na realidade um dos dois morreu. Triste, porém é mais frequente do que pensamos.


Observação:
Como a postagem ficou grande até aqui (eu sei que me empolgo, rs), vou dar um break e continuar depois, numa 2ª parte, ok? Espero que eu tenha despertado a curiosidade de vocês em ver ao menos um dos filmes já citados e, claro, em conferir quais os outros 5 da lista.
Até breve!

17 de mai. de 2013

DICA DE FILME: Orgulho e Preconceito, de Joe Wright


Essa dica de filme é meio "desatualizada", mas sei que muita gente ainda não viu o título em questão, mas certamente já ouviu falar de dois trabalhos do mesmo cineasta, Joe Wright, Desejo e Reparação e Anna Karenina, todos protagonizados por sua musa, Keira Knightley. Fica aqui, portanto, a sugestão: assista! Vocês podem notar que o texto ficou mais comprido que a média dos posts anteriores, mas faço questão que leiam - hehe.

Em Orgulho e Preconceito, admiramos todo o esplendor e a essência do período setecentista, que nem nas latinhas de bombons finos e cartões postais vendidos em lojas de souvenires da Europa. Damas e cavalheiros, trajados com metros e mais metros de tecido, babados e fitas, cortejando-se, fazendo piqueniques em paisagens bucólicas, ou simplesmente posando com aquela altivez característica da época. A escritora inglesa Jane Austen soube fisgar como poucos o espírito dos tempos em que viveu em obras como Razão e Sensibilidade e Emma, todos realizados sob a delicada ótica feminina com a qual faria gigantesco sucesso entre donas-de-casa da Belle Époque, transformando-se na mulher mais lida até o início do século 20 (100 anos antes de Harry Potter e 50 Tons de Cinza). Para complementar as clássicas ilustrações referidas, Orgulho e Preconceito imprime diálogos, conjunturas, insere a sociedade pré-vitoriana em rotinas, traça uma cronologia daquilo que deveríamos saber a respeito daquelas damas e cavalheiros. Revelam-se os maneirismos, as falas marcadas pela prosódia, a inocência dos atos, etc.

Orgulho e Preconceito já havia sido levado ao cinema hollywoodiano, em 1940, e houve também uma minissérie para a tevê britânica, além de uma adaptação indiana. Nas mãos do então estreante Joe Wright, o romance retornou às telas com ainda mais graça e leveza. Misturando drama e comédia, Wright fez questão de trabalhar num tom zombeteiro — e nem por isso menos humano — a obsessão da sra. Bennet (Brenda Blethyn) em casar suas cinco filhas. Basicamente, as moças nasciam para isso mesmo: arranjar um marido e procriar. Vez por outra, surgia alguma feminista, um tanto deslocada, é verdade, que tinha por objetivo revolucionar o tal código. Neste caso, a segunda filha do casal Bennet, Lizzie (Keira Knightley), é quem tenta impor suas vontades, enfrentar a mãe e escolher o homem com quem vai se casar. Quando a irmã mais velha, Jane (Rosamund Pike), conhece o jovem sr. Bingley (Simon Woods), Lizzie é apresentada ao arrogante sr. Darcy (Matthew Macfadyen), por quem não se afeiçoa à primeira vista, apesar de achá-lo atraente.

Como estratégia, Orgulho e Preconceito traz de volta a estilização e o requinte de um tema de aparência ultrapassada, antiquada, para colocar em xeque os hábitos comunitários da atualidade. Nota-se que as garotas de hoje não são tão diferentes assim, elas continuam sonhando com matrimônio, e as mães continuam sonhando com genros abastados... O disfarce é conveniente — e que disfarce! Da direção de arte à fotografia, o filme é de pura beleza pictórica, como as latas de bombons mencionadas acima ganhassem vida perante nossos olhos. A impressão obtida implica no deslumbramento do espectador com aquilo que se vê, envolvendo-o emocionalmente com os personagens, para, em seguida, fazê-lo racionalizar o enredo.

Wright — e Jane Austen, por que não? — encontram em Keira Knightley a intérprete ideal para dar vida à tempestiva Lizzie. A relação dela com Darcy esquenta e esfria conforme alguns desentendimentos começam a se sobrepor, o que resulta numa tentativa frustrada de contenção de sentimentos. Lizzie jamais esconde de nós o aborrecimento e, sobretudo, a decepção por Darcy ser aquilo que ela acredita ser. Knightley traduz uma maturidade pouco comum para uma adolescente (sobretudo se comparada às de hoje, que não sabem nada de nada exceto por assuntos ligados a "sedução", e digo isso sem querer generalizar), mas conserva a meiguice de toda donzela. Ficamos apenas na torcida para que os nós da trama se desfaçam e que o casal encontre conforto na futura união. Torcemos ainda para que obstáculos tipicamente “novelísticos”, como as divisões de classe, sejam logo minados pela roteirista Deborah Moggach (sabe-se que a atriz Emma Thompson, premiada com um Oscar por seu script de Razão e Sensibilidade, em 1995, ajudou Moggach a reescrever alguns trechos de Orgulho e Preconceito).

A desenvoltura com que opera a câmera e dispõe os atores em cada tomada fazia de Joe Wright um grande esteta em fase embrionária (vimos isso melhor desenvolvido em Desejo e Reparação no célebre trecho de guerra na praia). As cenas são construídas com uma “simplicidade complexa” de cair o queixo, como se o cineasta estivesse à vontade para juntar um enorme quebra-cabeça, sem nunca tê-lo feito, mas já conhecendo de cor a imagem a ser montada. As seqüências ambientadas na mansão dos irmãos Bingley e nos salões de festa, por exemplo, são convidativas, queremos observar mais de perto, participar daquilo como se tudo não passasse de uma brincadeira para adultos, uma fantasia de outro mundo. Naturalmente, a Inglaterra não era só povoada por burgueses e aristocratas, mas lembre-se de que Jane Austen tem o dom de transformar os séculos 18 e 19 num mundo cor-de-rosa, cheio de frufrus, acochegante, como se o maior problema das pessoas fosse mesmo conseguir um marido milionário para as filhas e desfrutar pensões anuais. Primeiro, Orgulho e Preconceito foi concebido como uma sátira; concluindo, temos uma singela história de amor, com final feliz e tudo mais, nenhuma pretensão. Só falta um lacinho florido em torno do DVD — e uma latinha de bombons finos para acompanhar a sessão.