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28 de fev. de 2014

CINEMA: Quais as apostas do BAZAR para o Oscar 2014?


No próximo domingo será realizada a cerimônia de entrega do prêmio mais cobiçado do cinema. Sei que muita gente esnoba o Oscar, alegando que é um prêmio voltado para a indústria hollywoodiana, dando ênfase a superproduções e a muito lobby dos grandes estúdios, e justamente por isso alguns títulos pouco memoráveis, como Shakespeare Apaixonado, Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei, tenham levado a estatueta de Melhor Filme.

No entanto, para qualquer cinéfilo é sempre divertido tentar adivinhar quais os filmes que sairão vitoriosos nas principais categorias. Em dezembro, eu já havia feito uma pequena previsão de quais películas teriam destaque nas indicações (relembre aqui), sendo que acertei na maioria dos casos, poucas semanas depois. Desta vez, o BAZAR dá seus palpites para as categorias mais importantes:


Fazia um bom tempo que não se tinha uma "safra" tão boa como a deste ano. Para mim, não há um indicado ruim entre os 9 concorrentes a Melhor Filme. Há fitas excelentes que foram meio subestimadas, isso é verdade. Elas acabaram recebendo pouco destaque, como Ela, de Spike Jonze, e Nebraska, de Alexander Payne.

Normalmente, antes do Oscar, temos um franco favorito ao prêmio principal da noite, pois há inúmeras premiações entre os meses de janeiro e fevereiro, como Critic's Choice, o Globo de Ouro, o Círculo dos Críticos de Nova York, o Bafta, além dos prêmios dos sindicatos de Hollywood. Este ano, a coisa foi meio dividida, não tivemos um filme que tenha arrebatado tudo, como aconteceu com Argo, no ano passado.

Mesmo assim, 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, destacou-se no Bafta, Sindicato dos Produtores e levou o Globo de Ouro de Melhor Drama. Sua maior "pedra do sapato", até final de janeiro, parecia ser Trapaça, de David O. Russell, que levou o Globo de Ouro de Melhor Comédia e o Sindicato dos Atores de Melhor Elenco, contudo, Gravidade começou a deslanchar em inúmeras premiações, levou 6 Baftas pra casa, foi o destaque do People's Choice e até empatou com 12 Anos de Escravidão no prêmio do Sindicato dos Produtores. Assim sendo, Gravidade aparece hoje como a maior ameaça para o filme de McQueen. Tá pau a pau, mas ainda acho que 12 Anos leva.


Nesta categoria parece não ter pra ninguém exceto Alfonso Cuarón, de Gravidade. E não é injustiça, não. Pelo contrário: Cuarón revitalizou o gênero de ficção científica, fez aquele que é chamado o melhor filme ambientado no espaço desde Aliens: O Resgate, de James Cameron, e colocou os nervos dos espectadores à prova. Tudo isso com dois atores em cena, mais as imagens assustadoramente belas do universo ao fundo, inseridas na pós-produção.

Não seria espantoso ver Gravidade levando o maior número de estatuetas, pois é um filme que merece sair vitorioso em todas as categorias técnicas, como Fotografia, Trilha Musical, Efeitos Visuais e Sonoros. De qualquer modo, Cuarón deverá se tornar o primeiro mexicano a receber a distinção. Justíssimo.


É na categoria Melhor Roteiro Original que Spike Jonze, menosprezado como Melhor Diretor, deverá ser recompensado pelo melancólico e superatual Ela. Mas Jonze tem oponentes de peso, como Woody Allen e o diretor David O. Russell, que, aparentemente, é seu maior fantasma por causa de Trapaça. Contudo, na minha modesta opinião, Trapaça não possui nem de longe o melhor script do ano, portanto seria injusto ver Ela perdendo aqui.

Já na categoria Melhor Roteiro Adaptado minha aposta vai para 12 Anos de Escravidão mesmo. O eletrizante Capitão Phillips pode surpreender, uma vez que foi o vencedor do prêmio do Sindicato dos Roteiristas no começo de fevereiro, mas 12 Anos, na ocasião, ficou de fora porque o autor não era sindicalizado, regra que o tornava inelegível.


Este ano, os homens se destacaram por atuações formidáveis: todos os atores são igualmente merecedores, inclusive a zebra Christian Bale (na verdade, eu teria trocado Bale por Joaquim Phoenix, mas tudo bem).

Leonardo DiCaprio fez a melhor performance de sua carreira em O Lobo de Wall Street, exagerado conforme solicitado pelo roteiro sarcástico. Bruce Dern ficou na linha entre o drama e o patético em Nebraska, tudo muito sutil e digno. O inglês Chiwetel Ejiofor emociona com seu olhar e suas expressões de dor e humilhação no papel central de 12 Anos de Escravidão, ele pode até ser uma surpresa, contudo o grande favorito é mesmo Matthew McConaughey, que se despediu de vez dos papéis de galã em comédias românticas e passou a investir em dramas mais sérios. Sua transformação física para viver um aidético em Clube de Compras Dallas é digna de nota e só perde para a de seu colega de cena, Jared Leto (mais a seguir).


Outra barbada deste ano é ver a australiana Cate Blanchett subir pela 2ª vez ao palco da Academia para levar um prêmio, desta vez de Melhor Atriz Principal (ela já levara um de coadjuvante por O Aviador). Nenhuma de suas concorrentes, embora todas talentosas, parece ameaçá-la. Cate praticamente engole tudo a sua volta em Blue Jasmine, num dos papéis mais complexos já escritos por Woody Allen: sua personagem é comovente e ao mesmo tempo desprezível. O que não se pode negar é que Cate agarrou a oportunidade de trabalhar com um dos cineastas mais importantes da História com unhas e dentes e nos presentou com uma atuação magistral.


Jared Leto levar o prêmio de coadjuvante é outra sólida certeza na noite de 2 de março. O BAZAR já havia sentido o "cheirinho de Oscar" num post dedicado ao ator/cantor, em novembro do ano passado (relembre aqui). Fazer um travesti morrendo de aids é por si só um chamariz para prêmios, mas Leto levou tudo muito a sério e ficou realmente impressionante no filme Clube de Compras Dallas.

Sem Leto no páreo, Barkhad Abdi (Capitão Phillips) e Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão) seriam candidatos com bastante força, no entanto eles já sumiram das apostas; caso um deles ganhasse, todo mundo ficaria escandalizado.


Agora a última categoria "nobre" da noite (e que costuma ser a primeira revelada na festa): Melhor Atriz Coadjuvante. Eu aposto na mexicana Lupita Nyong'o, que fez um papel pequeno porém intenso em 12 Anos de Escravidão. Neste ano, colocaram atrizes em papéis "consideráveis" como principais na categoria de coadjuvante (Julia Roberts, June Squibb). Até mesmo a maior rival de Lupita, Jennifer Lawrence, está num papel que poderia se passar por principal, mas não quiseram colocá-la rivalizando com Amy Adams pelo mesmo filme.

Aliás, Jennifer Lawrence, que "roubou" o prêmio de Emmanuelle Riva (de Amor), no ano passado, embora estivesse bem em O Lado Bom da Vida, se redimiu comigo ao fazer a performance mais interessante e memorável de Trapaça. Se Lupita Nyong'o não levar o Oscar deste ano, não será uma injustiça terrível perder para Jennifer. Esta realmente veio pra ficar.


Então, agora, é só conferir a festa e ver quais os palpites (seus e do blog) irão bater com as escolhas da Academia. Será que vai dar 12 Anos de Escravidão, Gravidade ou Trapaça como Melhor Filme?

Obs: Lembrando que há 2 filmes disputando o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro que já foram resenhados pelo BAZAR: o dinamarquês A Caça (resenha aqui) e o excepcional A Grande Beleza (resenha aqui), que nas minhas apostas deve levar, merecidamente.

1 de fev. de 2014

DICA: Exposição em São Paulo celebra a reinvenção e a geniosidade de David Bowie


Mesmo quem não gosta muito de suas músicas deve reconhecer que David Bowie foi um dos artistas pop mais interessantes e ousados do século 20. Assim como ele bebeu da fonte de muitas personalidades anteriores, como Dalí, Marlene Dietrich, Warhol, entre outros, Bowie também influenciou dezenas de cantores com sua capacidade de se reinventar a cada projeto, criando inúmeras fases completamente distintas: do enigmático alienígena Ziggy Stardust, nos anos 60, ao glam e ao punk dos anos 70, passando do eletrônico (década de 80), o elegante e eremita roqueiro cool dos anos 90 e agora um ícone de elegância em pleno século 21, com direito a estrelar campanha da Louis Vuitton em 2013.

Falo sobre isso porque, após a bem-sucedida exposição sobre o grande cineasta Stanley Kubrick, o Museu da Imagem e do Som (o MIS), de São Paulo, traz uma mostra dedicada a David Bowie. Originalmente concebida pelo Victoria & Albert Museum, em Londres, no ano passado, a exposição abriu na última quinta-feira, trazendo alguns dos figurinos mais emblemáticos dos quase 50 anos de carreira do cantor/ator.


Peças desenhadas por estilistas japoneses, além de jaquetas e conjuntos usados em turnês lendárias, como a Ziggy Stardust and The Spiders from Mars, ou o terno azul da capa do disco Life on Mars, colagens manufaturadas pelo próprio Bowie e fotografias inéditas, algumas ao lado de escritores e atores famosos, tudo isso estará em cartaz até o dia 20 de abril.

Vale destacar que São Paulo é a segunda cidade a receber a exposição depois de Londres. Antes, ela deu uma passada por Toronto, no Canadá. Veja como comprar os ingressos abaixo. Com certeza vale a pena conferir de perto a evolução do lendário "camaleão do rock", não?


3 de jan. de 2014

CINEMA: A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino


Você chega a uma balada repleta de gente milionária, vestindo “o último grito da moda”, animação e drogas por todos os lados. A música é eletrônica, no volume máximo, executada pelos melhores DJs. Personalidades excêntricas da high society, "dignas" de aparecer na próxima edição do Mulheres Ricas, fazem pose para as câmeras, se debruçam sobre os mais sarados do local, acordam, ainda meio entorpecidas por conta do álcool, do ecstasy e da música alta, junto aos primeiros raios de sol. E é aí que você começa a perceber que envelheceu, pois nada disso o anima, você deseja voltar pra casa mais cedo, decepciona-se porque nada lhe soa realmente novo, diferente ou relevante; tudo é extremamente artificial. Bom, isso pode não lhe acontecer com frequência, mas é o que ocorre, logo nos primeiros minutos de A Grande Beleza, ao escritor Jep Gambardella (Toni Servillo).

Gambardella é o renomado escritor da ficção que observa e se camufla num país decadente e ao mesmo tempo contraditório. Berço de uma das mais poderosas religiões do mundo, país que nos brindou com grandes mestres das artes como Leonardo DaVinci e Michelangelo, a Itália de hoje (e todo o planeta, por que não dizer?) é assolada por futilidades, exibicionismo e pessoas praticamente vazias de fé ou perspectivas.  Gambardella, portanto, é o reflexo dessa sociedade tão mentalmente inerte: está há anos tentando escrever um novo livro, mas não sai nada. Seus momentos de devaneio acontecem quando, ao deitar no quarto, ele observa o teto e imagina um oceano e toda sorte de ideias, no entanto ele não consegue colocá-las no papel, vive da glória e do prestígio do passado. 

O diretor Paolo Sorrentino, ao colocar sob o microscópio sua própria nação, outrora tão fundamental para o desenvolvimento mundial, agora transformada num dos centros da maior crise econômica que a Europa já enfrentou, isso sem mencionar os escândalos sexuais e de corrupção envolvendo o Vaticano e os tubarões da política, como Berlusconi, faz de A Grande Beleza uma obra magistral. Contudo, não é tão-somente isso que faz deste um dos melhores filmes de 2013. O estilo adotado por Sorrentino, uma nítida referência (e reverência) a Fellini, transforma A Grande Beleza numa espécie de híbrido dos dois mais importantes trabalhos assinados por Fellini na década de 60 — A Doce Vida (1960) e (1963) —, ou seja, não tem como errar.

Sorrentino marca um gol e tanto e nos apresenta o melhor filme italiano em mais de uma década. É como se ele mesclasse os personagens de Marcello Mastroianni das duas obras acima mencionadas: o cronista playboy de A Doce Vida, que se infiltra nas tristes orgias dos ricos e famosos + o cineasta em crise artística, de 8½, obcecado pela lembrança das mulheres que tivera em sua vida. Gambardella é a fusão de ambos, numa versão envelhecida e pessimista.

O personagem central perambula de um lado para o outro, em busca de inspiração. É assim que ele conhece belas mulheres que não têm nada além da superfície, ricaços desesperados pela “falsa juventude eterna”, ludibriados por cirurgiões plásticos que injetam botox em suas faces e confete em seus cérebros. Em determinado momento, ele chega a um célebre artista que, desde criança, faz um autorretrato diário (sem escapar nenhum dia sequer). Gambardella, então, põe-se a chorar — o espectador não sabe se é de emoção ou de desolação por ver uma obra tão absurda e pretensiosa. No fundo, o público vai ficando amargurado e sem esperança, sobra-nos apenas uma reavaliação de tudo aquilo que nos cerca, se de fato podemos testemunhar a tal beleza do título. O filme, sim, é de uma beleza singular, mas sua mensagem só reforça a feiura que o ser humano é capaz de exibir, muitas vezes sem se dar conta.

24 de dez. de 2013

ARTE: Conheça as "pinturas aquáticas" da americana Samantha French


Já faz um bom tempo que não falo de artes plásticas aqui no blog, hein? Mas um banho de cultura é sempre bom, ou melhor, um mergulho, se é que me permitem o trocadilho. Afinal, a artista que descobri recentemente e que gostaria de apresentar aos leitores, nesta semana de Natal, é especializada em reproduzir cenas de mergulhos, diversão e lazer à beira das piscinas.

Samantha French estabeleceu-se num ateliê em Nova York (foto abaixo), onde se graduou em artes plásticas em 2005. Mas são as memórias de sua infância no estado de Minnesota, onde passava os dias de verão nadando em lagos e piscinas, que influenciaram na temática e no estilo que hoje definem seu trabalho.


Como podem ver, suas telas são luminosas e realísticas. Samantha não economiza nos tons de azul vibrantes, as cintilações, as bolhas e os "ziguezagues" produzidos pelo movimento da água estão fielmente retratados em imagens que nos trazem ao mesmo tempo o silêncio da submersão e os gritos de alegria dos dias de verão. É como se estivéssemos, de fato, brincando na piscina junto aos personagens pintados pela artista.

Chega de blablablá e vamos dar uma olhada nos quadros de Samantha French. Como não concordar comigo e admitir que são lindos?













10 de dez. de 2013

CINEMA: 10 filmes que deverão se destacar no próximo Oscar (para se prestar atenção)

Ano acabando e, como todo mundo sabe, os grandes estúdios americanos começam a soltar seus melhores filmes, com temática mais adulta/séria, na tentativa de abocanhar um Oscar, o que ajuda, de certa forma, a perenizar essas obras.

Se você não é do tipo “cinéfilo de carteirinha”, desses que acompanham sites especializados, o BM fez uma lista com 10 títulos para você prestar atenção entre dezembro e fevereiro do ano que vem (período em que deverão estrear nos cinemas brasileiros; somente 2 estão em cartaz por aqui). São algumas das apostas, segundo os críticos em geral, para receber destaque nas premiações por vir, como Globo de Ouro, Bafta e, claro, o cobiçado Oscar.

Como a Academia, teoricamente, é voltada para reconhecer o mercado cinematográfico americano, são 10 filmes produzidos nos EUA, contudo há quem aposte em fitas de língua não-inglesa para algumas categorias, como O Passado, do iraniano Asghar Farhadi (já resenhado aqui).

Outro filme não americano que está tentando captar atenção suficiente para concorrer em categorias principais é o francês Azul, A Cor Mais Quente, que levou a Palma de Ouro no último Festival de Cannes (este não poderá ser indicado a Melhor Filme Estrangeiro, uma vez que a França escolheu para a disputa o drama biográfico Renoir, também resenhado aqui). É meio improvável, pois a Academia costuma ser bastante conservadora, e o filme em questão traz cenas fortes de sexo (lembra quando Michael Fassbender foi ignorado das indicações por Shame?).

Bom, vamos então à lista, em ordem alfabética:


12 ANOS DE ESCRAVIDÃO
A história real de um negro liberto que, em meados do século 19, foi raptado e novamente transformado em escravo, assediado e maltratado por seu dono durante 12 anos, é considerada por muitos como a grande favorita para levar os prêmios principais, como Melhor Filme, Diretor, Ator e Atriz Coadjuvante. O cineasta Steve McQueen, segundo dizem os críticos americanos, transcendeu todos os padrões já consagrados ao retratar a escravidão, fazendo um filme brutal e chocante, tal qual foi esse período. Se McQueen levar o troféu de Direção, será também o primeiro negro a lograr tal façanha. O que já se presume é que deverá ser a fita com o maior número de indicações em 2014.


ALL IS LOST*
O veterano Robert Redford já tem um Oscar em casa, mas foi pela direção do drama Gente como a Gente, da década de 80. Como ator, porém, ele nunca foi muito reconhecido, sempre tachado de galã e nada mais. Essa aventura, sobre um homem que, em meio a uma tormenta, tenta sobreviver sozinho num barco em alto-mar, pode lhe dar a consagração tardia e merecida. Redford, vale dizer, carrega o filme inteiro sozinho e com quase nenhuma fala.


BALADA DE UM HOMEM COMUM
Mistura de invenção e realidade, a vida de um cantor e guitarrista folk dos anos 60 chamado Llewyn Davis tem a assinatura dos irmãos Coen, queridinhos da Academia há muitos anos. Traz o astro pop Justin Timberlake numa atuação elogiada, mas que deverá ser ignorada pelo Oscar (num ano em que os papéis masculinos estão bem fortes). Quem pode receber algum tipo de reconhecimento é Carey Mulligan, como Melhor Coadjuvante. O roteiro dos Coen também pode se destacar.


BLUE JASMINE
Esse já está em cartaz no Brasil há algum tempo e a performance de Cate Blanchett, que foge um pouco da habitual "caricaturização" dos protagonistas de Woody Allen — conferindo-lhe mais tridimensionalidade e carregando nas nuances entre o drama e o cômico, a vilania e a simpatia —, pode ser recompensada com o Oscar de Melhor Atriz. A australiana é considerada uma das maiores intérpretes da atualidade, mas só foi agraciada com um prêmio de coadjuvante por O Aviador. Ela jamais esteve tão perto de levar o prêmio como Atriz Principal como desta vez.


DALLAS BUYERS CLUB*
Eu já havia falado sobre as enormes chances de Jared Leto abocanhar o prêmio de Ator Coadjuvante (neste post), e, a cada resenha publicada, essas chances parecem maiores. Leto é quase uma certeza, pois entre os papéis secundários do ano, poucos serão tão marcantes como o travesti morrendo de Aids interpretado pelo vocalista de 30 Seconds to Mars. Há quem diga que Matthew McConaughey, o ator principal, igualmente impecável, poderá faturar o Oscar de Melhor Ator também, mas, se for indicado, ele enfrentará fortes concorrentes na categoria.


ELA
Se neste ano a performance visceral de Joaquim Phoenix em O Mestre foi totalmente deixada à sombra pela reencarnação de Daniel Day-Lewis como Lincoln, em 2014 Phoenix poderá ter mais uma chance de levar o prêmio, pela ficção científica Ela, de Spike Jonze. O diretor é famoso por seus roteiros amalucados, o que não foge à regra aqui, com Joaquim Phoenix vivendo um escritor que se apaixona pela voz feminina de um software. Já levou prêmios importantes, como o National Board of Review e o prêmio dos Críticos de Los Angeles.


GRAVIDADE
Assim como Blue Jasmine, Gravidade é outro título que já está em cartaz no Brasil há algum tempo e que traz a segunda protagonista mais forte na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz, Sandra Bullock. Não há muito o que falar a respeito deste filme que já não tenha sido falado na época de seu lançamento, em outubro. O que se pode apontar é que o mexicano Alfonso Cuarón seja talvez o maior páreo, depois de Steve McQueen, para levar o Oscar de Melhor Diretor nesta temporada.


O LOBO DE WALL STREET
Depois do regular A Invenção de Hugo Cabret, Martin Scorsese está de volta às premiações, desta vez com uma sátira ao mundo dos negócios. Leonardo DiCaprio, novo muso do diretor de Touro Indomável, faz o papel de um corretor de ações que atinge o auge e a decadência nos anos 90, algo que envolve abuso de drogas e corrupção. Poderá receber indicações importantes, mas dificilmente vai sair ganhador, tendo no encalço temas mais sérios.


NEBRASKA
O cineasta Alexander Payne, outro queridinho da Academia, retorna com um drama mais conceitual e autoral. Além de Robert Redford, por All is Lost, há quem aposte na vitória de outro veterano das telas, Bruce Dern, fazendo um homem que acredita ter ganhado um prêmio milionário após receber uma propaganda pelo correio e, assim, despertando o olho gordo de seus familiares. Rodado em preto-e-branco e trazendo um tema bastante humano, é possível que receba indicações importantes, como Melhor Filme, Direção, Roteiro, mas é quase certeza ver Bruce Dern, já premiado em Cannes, entre os 5 Melhores Atores.  


TRAPAÇA
Por último, temos este novo trabalho de David O. Russell, ambientado nos anos 70, que pode render uma nova indicação (e até vitória!) para Jennifer Lawrence, num papel-chave porém secundário, provando que a Academia adora essa jovem atriz. Tal como O Lobo de Wall Street, Trapaça é outro filme em tom de sátira que mostra a sujeira por trás do mundo dos negócios, do FBI e da máfia, e traz no elenco alguns dos atores mais versáteis da nova geração, como Jeremy Renner, Christian Bale e Amy Adams. Levou os prêmios de Melhor Filme, Roteiro e Atriz Coadjuvante pelo Círculo dos Críticos de Nova York, o que lhe dá força total para a campanha pelo Oscar.


Observações:
Avisando que esta semana saem os indicados ao Globo de Ouro, considerado o maior termômetro do Oscar e o 2º prêmio mais importante de Hollywood. Contudo, os votantes ainda não viram 4 filmes já consagrados por algumas associações de críticos (Lone Survivor*Trapaça, O Lobo de Wall Street e O Hobbit: A Desolação de Smaug), podendo deixá-los de fora e, portanto, enfraquecendo a campanha dos estúdios por eles. Como tática de desespero, serão realizadas sessões de última hora aos membros da Associação dos Críticos Estrangeiros em Hollywood, que outorga o Globo de Ouro, ainda hoje, terça-feira.

E nesta quarta-feira serão anunciados os indicados ao Screen Actors Guild, que é talvez o mais importante prêmio dos sindicatos de Hollywood para se medir a temperatura do Oscar, uma vez que a maioria esmagadora dos votantes da Academia é composta por atores.

Entre os filmes não mencionados acima que podem surpreender, tanto no Globo de Ouro, no SAG ou no Oscar, estão: Philomena, Álbum de Família (com Meryl Streep, que é sempre indicada), Frances HaWalt nos Bastidores de Mary Poppins, A Última ParadaO Mordomo da Casa Branca, Capitão Phillips, A Vida Secreta de Walter Mitty e Antes da Meia-Noite.

Portanto, fiquem atentos a todos esses títulos nos próximos 2, 3 meses. O Oscar de 2014 deverá ser o mais disputado dos últimos tempos...
;)

*ainda não tem título oficial brasileiro
Fotos: reprodução

28 de nov. de 2013

DICA DE LIVRO: Se eu Morrer Antes de Você, de Allison Brennan

Sabe aquela premissa de que não se deve julgar um livro pela capa? Pois Se eu Morrer Antes de Você (Universo dos Livros, 480 págs) é desse tipo: quando bati o olho na livraria, no começo do mês, pensei que estivesse na seção errada, mas não. Não se trata de um romance açucarado ao estilo Nicholas Sparks, embora tenha uma sequência de amor um tanto explícita lá pelos idos da página 300, 350.

Seguindo o estilo de algumas de minhas autoras favoritas, como Tess Gerritsen ou, em especial, Patricia Cornwell (que eu adoro), a americana Allison Brennan apresenta um thriller protagonizado por uma personagem feminina que, com a ajuda de algumas pessoas, tenta desvendar a identidade de um serial killer. Assim como já ocorreu em determinadas histórias com as personagens mais famosas das escritoras já mencionadas, sobretudo com a legista (e bisbilhoteira) Kay Scarpetta, criada por Patricia Cornwell, Se eu Morrer Antes de Você também traz aqui uma ameaça à heroína.

Deve-se, porém, destacar que Lucy Kincaid, a personagem central, tem um passado bem díspar e inusitado: fora vítima de um sequestro e um duplo estupro, exibido pela internet, praticado por dois maníacos quando ela ainda estava saindo da adolescência.  Lucy poderia ter virado vítima do seu próprio trauma, mas conseguiu superar. Passou a estudar como se sua existência dependesse disso, fez cursos de autodefesa, quase virou uma nadadora olímpica, cursou psicologia, fez especializações em criminologia e, agora, tenta ingressar no FBI com o intuito, justamente, de perseguir criminosos sexuais que atacam virtualmente. Allison Brennan adora destacar todos os atributos de sua personagem nos primeiros capítulos.

Na família de Lucy (inclusive um ex-namorado, que depois virou amigo) existem agentes da Inteligência Americana, psiquiatras, etc., e é com a ajuda destes que ela constrói armadilhas para capturar estupradores que marcam encontros via internet, fazendo-se passar por garotas inocentes em salas de bate-papo. A coisa começa a ficar, de fato, bizarra quando esses criminosos fisgados por ela começam a ser assassinados, e Lucy passa a acreditar que esteja sendo alvo de uma perseguição.

Até agora não revelei nada, está tudo mais ou menos descrito na sinopse do livro, atrás daquela capa idílica, que imprime um título ainda mais meloso — nada a ver com seu conteúdo... O mais interessante ao descobri-lo na livraria foi que ele trazia um contexto particularmente atual: o perigo por trás desses encontros marcados em chats virtuais com estranhos. Mas calma, nem toda mulher que utiliza esse tipo de ferramenta, na busca do “príncipe encantado”, vai se deparar com um psicopata misógino. Mesmo assim é um risco iminente.

O arquétipo da heroína quase infalível, sedutora, que jamais questiona se suas ações são as mais corretas, sempre destemida, é derrubado por Brennan, embora alguns clichês do gênero estejam presentes, como cartas de assinatura falsa, porões que acobertam crimes horrendos e tortura, câmeras de segurança que desvelam surpresinhas, pensamentos em primeira pessoa, grafados em itálico, do próprio serial killer, a constante suspeita, por parte do leitor, sobre o novo namorado de Lucy, etc. Entretanto, não chega a ser um livro incômodo ou escatológico, como poderia se supor, dado o tema perverso da trama. Mas a autora é bem-sucedida em elaborar capítulos cada vez mais tensos, que não nos fazem querer desgrudar de suas páginas.

Existem aqueles pequeninos mistérios e estudos psicológicos, sempre encontrados nos bons romances policiais: como Lucy pôde superar tamanha brutalidade em tão pouco tempo? O que um de seus primeiros algozes estaria fazendo na cidade em que Lucy mora, antes de ser assassinado, sendo que ele devia estar cumprindo prisão num outro estado? O que o enigmático serial killer do enredo procura? Ele age sozinho ou possui comparsas?

Aparentemente, Se eu Morrer Antes de Você faz parte de uma série, tanto que o último capítulo, na realidade, é uma prévia de outro romance da mesma autora, mas nada que impeça você de saborear este de modo independente. Minha maior ressalva, além do título inadequado e da capa meio romântica (embora, após a leitura, tenha passado a enxergar uma dubiedade na foto), é com relação aos erros de digitação, que concatenam algumas palavras (cadê o revisor?). No geral, para quem gosta de romances policiais, é um bom exemplar e um ótimo passatempo.


Observação: 
E não deixem de participar do sorteio que o BAZAR está promovendo este mês na fan page. Para participar é muito simples e rápido, não vai levar nem 1 minuto do seu tempo e você terá a chance de levar para a casa um kit com 3 cosméticos da luxuosa marca francesa Nickel, todos já resenhados pelo blog. O prêmio vale cerca de R$ 300, um presentão de fim de ano!
Clique aqui para ver as instruções e participe!

5 de nov. de 2013

MÚSICA: Cut Copy lança esta semana novo álbum para quem curte música pop eletrônica de alta qualidade


Deve ser a primeira vez que faço uma resenha de um disco por aqui, no entanto, desta vez não deu pra segurar, afinal este deve ser o melhor álbum do ano, sem dúvida. A banda australiana Cut Copy não é muito popular no Brasil, exceto entre os hipsters e especialistas em eletro/pop, mas já vou recomendando pra todo mundo que ainda não conhece: largue tudo pra trás e corra ouvir pelo menos os dois últimos trabalhos do grupo, Zonoscope e, este novo, Free Your Mind, que chegou às lojas virtuais esta semana.

Alguns podem alegar que Free Your Mind é mais do mesmo, pois ele segue a mesma linha do Zonoscope, com uma sonoridade eletrônica muito anos 80, coisa que certamente irá agradar aos fãs do New Order e Depeche Mode, notórias inspirações dos australianos. Se os primeiros álbuns do Cut Copy eram mais instrumentais, com poucos vocais, sendo estes bastante repetitivos, como em Hearts on Fire, os dois últimos já apelaram para algo mais comercial, menos “club”.

Lançado em 2011, Zonoscope segue como o meu disco favorito desta década, que ainda tem um tanto para terminar — nunca se sabe — e 2013 está a menos de 60 dias para seu desfecho, porém já está definido: Free Your Mind já é meu “disco do ano” (Daft Punk, Miley Cyrus, Katy Perry, etc., nem chegam perto, embora eu tenha amado pelo menos metade das faixas de Reflektor, o novo álbum do Arcade Fire).

A “carro-chefe” ganhou um videoclipe estrelado pelo ator sueco Alexander Skarsgård, de True Blood (veja logo abaixo), e agora a banda está pretendendo lançar como 2º single a melhor do álbum, We Are Explorers. Aguardemos um clipe à altura.



Assim como nos álbuns prévios, temos algumas faixas de poucos segundos que apenas fazem uma transição entre uma música e outra. Sons e vocais igualmente hipnóticos embalam canções dançantes como Let Me Show You Love e Footsteps, mas há espaço para baladas, como Walking in the Sky. Mas não tem jeito: o forte do Cut Copy são as pistas de dança, e em Free Your Mind não há como ficar muito tempo parado. 

No iTunes → clique aqui || no Amazon → clique aqui || preço médio: US$ 12

Você também pode fazer um streaming do álbum no link → http://www.cutcopy.net/

29 de out. de 2013

DICA DE FILME: O Passado (2013), de Asghar Farhadi


Muita gente está torcendo pela a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano que vem para o iraniano O Passado, de Asghar Farhadi, o mesmo de À Procura de Elly e A Separação, ambos consagradíssimos em Berlim. Desta vez, Faradhi rodou na França, com Bérénice Bejo num papel muito elogiado, premiado no último Festival de Cannes. Essa breve apresentação dos louros recém-colhidos serve apenas para reforçar a importância que a filmografia desse grande autor iraniano vem ganhando no cinema mundial da atualidade.

Com O Passado, Farhadi mostra que conseguiu de novo: fez um trabalho sério, denso e psicologicamente complexo. Se em sua obra anterior ele se propôs a analisar com minúcias a destruição de um casamento e de como isso afeta não apenas os cônjuges como também a filha do casal, aqui ele coloca o espectador perante uma separação sob um novo ponto de vista: os personagens de Bérénice e Ali Mosaffa já estão separados há algum tempo; este último sai do Irã e desembarca na França apenas para assinar o divórcio. Aproveita, porém, para matar saudade das filhas de sua ex-companheira, com quem não teve herdeiros. Em consequência, interfere nos pequenos problemas que as meninas, sobretudo a mais velha, têm com relação ao novo namorado da mãe.

É nesse conflito entre a enteada mais velha e o atual companheiro da mãe que surge o personagem de Tahar Rahim (protagonista do excelente O Profeta), que a princípio surge como uma espécie de antagonista e, pouco a pouco, vai mostrando um lado humano, conquistando a confiança e simpatia do público, mesmo quando parece extremamente rígido com seu pequeno filho, Fouad, outro personagem infantil complexo que vai sendo “domado” por meio da presença apaziguadora de Mosaffa (sim, mesmo este último, teoricamente, não ter mais nada a ver com a família que deixou na França, é ele quem vai transformando todos os envolvidos da história).

Impressionante como Farhadi é mestre em realizar esse tipo de reveses em suas tramas. Tanto Bérénice quanto Rahim são antipáticos aos nossos olhares na primeira metade da fita e, quando menos esperamos, seus comportamentos um tanto radicais ou explosivos vão nos parecendo mais compreensíveis, aceitáveis. Pequenas surpresas vão também sendo reveladas, num clima de suspense, e uma tentativa frustrada de suicídio da mãe de Fouad, ainda casada com Rahim, constantemente mencionada, serve como outro tema de impacto. Farhadi adora surpreender o público!

O final enigmático, outra marca-registrada na obra do diretor, encerra com maestria essa pequeno grande filme, radiografia veemente de muitas famílias modernas, aquelas que vão conservando laços irreversíveis, mesmo depois de separações (traumáticas ou não), e da França diversificada de hoje, marcada pela crescente imigração de asiáticos e africanos. Na sequência final, cheia de doçura e delicadeza, existe aquela sensação de esperança, mas também de que aquilo que precisava ser feito e que estava ao alcance de todos já fora perpretado. O passado, portanto, fica pra trás, o que importa é o presente.

O Passado estreia em 19 de dezembro nos cinemas do Brasil.

5 de out. de 2013

DICA DE FILME: Rio Violento, de Elia Kazan


Desolado, um homem explica como membros de sua família não resistiram às enchentes do rio Tennessee e foram levados para a morte junto de casas, animais, árvores e o que mais estivesse no caminho. O desastre natural acende pauta no Congresso, e o presidente Roosevelt, engajado com seu projeto de reerguer o país depois da Grande Depressão de 1929, o New Deal, resolve erguer barragens e uma hidroelétrica na região, anuindo uma proposta do partido republicano. O organismo encarregado é a TVA (Tennessee Valley Authority), que envia agentes ao cenário da hecatombe a fim de comprar as terras que contornam o rio. Tudo correria conforme planejado se não fosse pela resistência de uma senhora cabeça-dura, proprietária de uma ilhota situada no coração do Tennessee. A velha recusa-se a quitar a casa onde passou mais da metade da vida e onde seu falecido esposo encontra-se sepultado. Para tentar convencê-la a vender a terra, Chuck Glover, da TVA, chega à cidadezinha e só pensa em ir embora após concluir sua missão. Munido de incontáveis argumentos e de muita paciência, ele demonstra como as obras do governo podem gerar considerável avanço econômico no vale, melhorando as condições de vida dos habitantes. Entretanto, a sra. Ella Garth é irredutível.

Ambientado no inóspito extremo-sul americano dos anos 30, Rio Violento (1960) é um doloroso álbum de recordações do diretor turco Elia Kazan, um scrapbook no qual pôde grampear cenas que remontam toda uma época conturbada e repleta de cicatrizes profundas. À primeira vista, temos uma história traçada pelo antagonismo do progresso com a tradição, do valor material fazendo contraste com o valor sentimental.

No decorrer da fita, porém, um tema muito mais pungente se sobressai: o racismo. No passado, Kazan já se valera de tópicos semelhantes em filmes como Vidas Amargas (conflito de gerações), Boneca de Carne (localizado no Mississipi, ao sudeste dos Estados Unidos) e A Luz é Para Todos (sobre racismo, no caso, contra judeus). Em todos, Kazan realiza uma espécie de crítica aos costumes americanos, sejam eles causados pelo puritanismo extremo (principalmente em relação à sexualidade) ou por sentimentos herdados ao longo da História (por exemplo, a segregação sulista contra os negros, remanescente desde o fim da escravidão).

O cineasta escancara memorandos de sua vida nos Estados Unidos, na condição de imigrante, algo que também seria evocado muitas vezes por ele através de alguns personagens marcantes — Stanley Kowalski, de Uma Rua Chamada Pecado, se não me engano, veio da Polônia; os negros de O que a Carne Herda descendem dos “imigrantes forçados”, vindos da África; em Terra de um Sonho Distante, seu projeto mais pessoal, temos imigrantes turcos na Grécia, sempre permeados pelo sonho de chegar à América.

Para ele, o que vemos na tela é apenas um fragmento, há muito mais a respeito de uma pessoa ou de um fato do que se poderia presumir. Em vez de apostar as fichas num trabalho épico sobre um assunto exclusivo, ele prefere rodar uma série de pequenas histórias (muitas delas escritas por Tennessee Williams e Arthur Miller, seus autores favoritos) e distribuir elementos-chave que nos obrigam a refletir sobre a mais variada gama de temas e suas causas e conseqüências.

A ilha de Ella Garth personifica o passado, a pedra que faz emperrar as engrenagens da modernidade. Apesar dos apelos e das propostas justas de Chuck, a velha finge que não é com ela, ganhando apoio dos filhos, da neta e da pequena comunidade negra acolhida por ela em suas terras. Assim, a ilha concentra um simulacro de gueto, no qual os marginalizados, mantidos a distância da civilização, lançam olhares de suspeita para as novidades aportadas pela TVA. Entre Ella e Chuck está a jovem Carol, neta da sra. Garth, que logo se transforma na ponte para as negociações — a garota, no início, permanece atada ao pretérito, ao falecido marido, sendo nada menos que uma versão jovem de Ella; aos poucos, a resistência de Carol cede espaço à vontade de variar, de ser puxada por Chuck para um mundo radicalmente alheio àquele em que sempre estivera.

Lançado pela Classicline em setembro,
o DVD custa, em média, R$ 40
O romance que emerge entre ela e Chuck deflagra esse progressivo sentimento de mudança, e é com esse gancho que Kazan resolve dedilhar as facilidades do óbvio e do melodrama, sem, no entanto, assumir uma postura piegas. Mestre na arte de dirigir atores (sua experiência prévia no teatro se faz sentir em cada trabalho), ele coloca lado a lado Montgomery Clift, Lee Remick e Jo Van Fleet nos papéis principais, oferecendo-lhes a chance de brilhar mais do que nunca.

Já se falou muito acerca da performance inspirada de Jo Van Fleet, que, aos 46 anos de idade e envelhecida com maquiagem especial, arrasa na pele da octogenária Ella Garth, todavia vale sublinhar o espantoso envolvimento de Monty Clift e Lee Remick com esse projeto. Em Rio Violento, Clift, que andava tendo problemas com o alcoolismo, encontra um personagem definitivo e marcante. Lee Remick, grande atriz, hoje esquecida, interioriza as emoções de sua Carol de tal forma que com um simples gesto consegue transpassar as dúvidas e a angústia que tanto afligem sua consciência; os luminosos olhos azuis de Lee perdem-se no infinito, parecem querer expressar vontades indizíveis, estão desapontados com a atualidade e temerosos quanto ao futuro.

O elenco é focalizado pelas lentes do diretor de fotografia Ellsworth Fredericks, que usa e abusa da profundidade de campo, dando a impressão de mesclar os atores com a paisagem rural, pincelada por cores ocres e acinzentadas e castigadas pelo clima ora brilhante, ora sombrio e chuvoso do Tennessee.

O drama sucedido em Nova Orleans há quase dez anos, quando o furacão Katrina arrasou a cidade, rompendo diques de segurança no rio Mississipi e provocando enchentes devastadoras, ratifica o valor de contemporaneidade de Rio Violento. A maior tragédia natural sofrida nos Estados Unidos serviu para denunciar ao mundo os altos índices de pobreza na população majoritariamente negra da Luisiana, e trouxe de volta o fantasma da sra. Ella Garth com toda sua desconfiança quanto aos projetos de crescimento do governo.

O filme, de fato, não envelheceu nada, ao contrário: as plateias de hoje talvez possam apreciá-lo com mais sensatez que os espectadores originais. Devemos lembrar que ele foi exibido pela primeira vez num contexto social bem diferente de hoje, quando os conflitos raciais ganhavam um clímax de extrema violência. E também há o fator político, que sofreu transformações radicais na segunda metade do século 20. Servindo-se de um acontecimento passado, Elia Kazan ganha, neste caso, ares de profeta, faz de sua obra um marco artístico hollywoodiano (ele possui um currículo singular, impecável, com cara de europeu). A boa notícia que fica é que a Classicline acaba de lançar Rio Violento em DVD no Brasil (em média R$ 40). Vale a pena mergulhar nesse "tesouro perdido" de Kazan.

10 de set. de 2013

LIVRO: A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

A Visita Cruel do Tempo (ed. Intrínseca), de Jennifer Egan, ganhou o Pulitzer de Literatura e mais uma penca de prêmios 2 anos atrás, como observa a capa e a contracapa. Devo admitir que é o tipo de obra que costuma agradar em cheio aos críticos: não é uma narrativa linear e fluida, é cheia de mudanças cronológicas, uma hora o narrador é um; no capítulo seguinte, é outro, há uma interrupção abrupta na prosa e nos deparamos com dezenas de páginas com grafismos, balões de formatos variados e flechas... Do que se trata, afinal, esse livro?

A meu ver, é o tipo de história — ou “desconstrução da história” — em que a falta de uma ação única, um começo, meio e fim, é justamente seu principal motivo de existência. O niilismo está ali, intrincado em todos os personagens, cujas trajetórias vão se cruzando e descruzando, todos sem muito ânimo de viver, há um desapego total pelo cotidiano. Eles todos, de certo modo, se conhecem, mas nenhum está intimamente ligado, pequenos “conflitos” vão afastando todos; eles vêm, se tocam, mas não permanecem ligados por muito tempo. No fundo, é uma obra que exacerba o mundo individualista em que vivemos e de como esse abismo entre os seres humanos vai afetando o psicológico.

O melhor capítulo é, para mim, o da abertura, quando a ex-assistente de um empresário musical se vê numa saia-justa após ter sua cleptomania vergonhosamente flagrada num restaurante. Logo de cara, quando começamos a ler, a impressão que fica é de que será um estudo psicológico (e dos bons!) sobre essa personagem, que teremos um desenrolar dos fatos expostos. Sasha, a personagem em questão, relembra coisas que talvez a levassem a praticar esses pequenos furtos, a vergonha que sente, as conversas com o terapeuta, essas coisas. No capítulo seguinte, somos atirados para um quadro totalmente adverso, o narrador e o tempo parecem outros. E são mesmo.

Outro trecho interessante é quando acompanhamos o tédio de um jornalista, raramente impressionável, que deve entrevistar uma estrela de cinema, a mais popular do mundo, também acometida por um tédio e marasmo gigantesco, cansada de todas as mordomias e da concepção do glamour que os outros fazem dela. A entrevista é incomum, a atriz parece querer desabafar e encontra no repórter uma espécie de confidente para além da vida pública, a confiança aparece, mas logo é dissipada quando o outro também tenta ultrapassar os limites do anônimo/celebridade.

Em quase tudo, a indústria musical e do entretenimento está presente. É difícil se identificar por completo com esses personagens, uma vez que a realidade apresentada é tão díspar da nossa. Claro que anseios e desilusões são comuns nos seres humanos, as causas aqui, porém, parecem muito distantes. A autora, Jennifer Egan, dificilmente irá obter do leitor comum algum tipo de empatia por Sasha, Jules Jones, Bosco ou Bennie, seus personagens centrais. A trama vai circulando por todos eles, numa narração quase labiríntica. No entanto, quando tudo termina, parece não ter nos levado a nada. Talvez seja o tipo de trabalho que demande uma revisão, não é de todo complexo, mas a mensagem que Egan arriscou-se a transmitir não é de fácil digestão. Fica um leve contágio da amargura e da depressão de seus personagens.

22 de ago. de 2013

DICA DE FILME: Violência Gratuita, de Michael Haneke

Representante máximo do cinema-choque europeu, ao lado do francês Irreversível, Violência Gratuita despontou na carreira do austríaco Michael Haneke como o filhinho querido, aquele que enche o papai de orgulho por seu desempenho ímpar de conquistas e estarrecimento por onde quer que passe. Isso antes de A Professora de Piano, Caché, A Fita Branca e Amor, o que demonstra um crescente na sua maestria de narrar uma história.

Surgido da necessidade em expor uma sociedade enfraquecida pela delinquência juvenil, o filme rompe a tradição de escalar indivíduos corrompidos por uma infância difícil e materialmente desprovida como os monstros sanguinários, sem nada a perder, que tanto assombram a classe média, confinada em habitações luxuosas e confortáveis, fingindo que nada está acontecendo e ficando atônita com o sensacionalismo dos telejornais. Aqui, o horror vem da própria high society, em que jovens, na impressão de terem tudo que almejam, saem em busca de novos métodos de passatempo, o que é rapidamente encontrado nos mais variados atos ilícitos, como o consumo de drogas, brigas de rua, estupros, pequenos assaltos e por aí vai. Uma coisa leva a outra. Daí brotam algumas comparações óbvias com a primeira metade do cult Laranja Mecânica, não apenas tangentes ao problema da violência entre os jovens que roubam, espancam e matam por prazer, mas também em relação aos objetos narrativos que Haneke ordena ao longo de quase 100 minutos de puro sadismo: o uniforme branco dos agressores, a música clássica na abertura, o taco de golfe como arma, etc.

Uma família vai passar alguns dias em sua bela residência campestre e logo vira refém e é torturada por dois estudantes que gozam de férias na região. O ponto de partida parece suceder as fitas de horror B que simbolizaram as décadas de 70 e 80, quando o gênero era praticado, então, como meio de protesto político, crítica aos costumes contemporâneos, tudo numa época sacudida, em que a violência, de fato, começou a ser banalizada e os cineastas independentes — em especial nos Estados Unidos e na Itália — usavam e abusavam de cenas grotescas, verdadeiros banquetes de sangue. Mas, tão logo os vilões de Haneke começam a agir, transparecendo poses educadas e vocabulário culto, percebe-se que o filme em questão transcende o gênero, invadindo a tela com o mais puro realismo dramático da escola bávara.

O terror alimenta maior intimidade com a fantasia, o que não é o caso. Violência Gratuita não exagera em nada, porém é no mínimo insólito assistir a um casal inocente e a seu filho serem atacados por dois rapazes abastados em vez de dois brutamontes sem dentes ou algum mascarado maltrapilho (lembrou de Amargo Pesadelo?). Alguns podem rememorar Festim Diabólico, de Hitchcock, mas ali a bestialidade não era explícita, a sequência de assassinato reduzia-se a poucos segundos, inserida logo no início, tendo todo o resto da trama voltada para as tentativas de acobertamento do crime. Em ambos, porém, encontramos vilões refinados, bonitos e de aparência distinta, ponto chave para expandir o caráter chocante da composição.

A cada instante, o nível da agressão na película aumenta, oscilando entre o físico e o psicológico, testando os nervos das três vítimas da história. A impotência de um pai torna-se pretexto para o diretor utilizar o velho clichê da mulher que desafia o monstro (de onde surgiu a ideia de que os filmes de terror são todos misóginos, uma vez que a maioria deles acaba com a mulher derrotando o vilão?), mas a mãe, embora enfrente seus temores com estoicismo, ignora por completo as surpresas do script, superousado se comparado às produções americanas, que costumam poupar crianças e animais, convergindo quase sempre a um happy end. De qualquer modo, Haneke deixa claro mais de uma vez que, junto de seu alerta sobre a crise da nova geração, tudo não passa de um filme. Os torturadores às vezes olham diretamente para a câmera e “conversam” com o espectador, e existe até mesmo um ambicioso recurso estilístico que faz a fita voltar e corrigir um erro na vigilância dos perigosos antagonistas.

Assim como faria depois em Cachè, Haneke promove um exercício de confiança mútua entre o casal protagonista ante a ameaça, seja ela explícita ou misteriosa, testando os valores matrimoniais numa situação de perigo. Em suma: no lugar de cumplicidade, as fitas de vídeo que perturbam o casal de Caché acendem atritos e revelam a falta de solidez na relação marido-mulher; em Violência Gratuita, a tortura faz diminuir Georg, o pai, quase por completo, sendo ele incapaz de reagir, inclusive quando o bandido ordena que sua esposa tire a roupa. É a humilhação na sua forma mais integral, como se o público apontasse o dedo para o sujeito e o chamasse de “covarde” a cada cinco minutos. Mas o que mais ele poderia fazer? Reagir e brincar com a sorte? Sim, afinal — nós sabemos —, muitos pais arriscariam a própria vida para salvar sua família, confirmando, portanto, a debilidade de Georg como protagonista e transferindo a Anna o papel de autêntica heroína da história.

É irônico notar que todo esse esforço para combater o mal parte de um problema tão idiota, uma vez que os dois bandidos estão ali sem nenhum motivo aparente, daí a gratuidade insinuada no título brasileiro. O recado é perigoso, mas inegável. Ficar aprisionado e esperar o fim do pesadelo pode ser a pior alternativa, principalmente quando não notamos que o problema também tende a nascer em nossos lares. Não há garantia de que um jovem de futuro promissor não possa de repente se tornar um assassino frio e cínico; os psicopatas não demonstram sintomas.

Além disso, o filme está aí para reforçar a ideia de que não devemos confiar em estranhos, até os mais bem-apessoados. Estamos numa viagem sem volta, a desconfiança é questão de sobrevivência. E vale dizer que o próprio Haneke — gabando-se da qualidade de auteur, e não de um mero diretor — incumbiu-se de reaproveitar o projeto em Hollywood (o remake foi encabeçado por ninguém menos que Naomi Watts), unicamente para assegurar-se de que outro colega não perdesse o enfoque niilista do script original. Esse é um jeito fácil de vender seu produto ao maior número de espectadores possível sem arruinar sua postura autoral; a violência, para ele, é gratuita, mas a sociedade não deixa de pagar para vê-la.

20 de ago. de 2013

ARTE: As fotografias erótico-realistas da sueca Lina Scheynius


Esta é para os apaixonados por fotografia, grupo ao qual me incluo: a ex-modelo sueca Lina Scheynius, nos últimos anos, virou uma fotógrafa de mão cheia, registrando cenas de seu cotidiano ou de seu namorado e amigos. Quem adora belas imagens, com alguma textura e belos jogos de luz e sombra, vai se encantar com o que Lina produz.

Documentando desde um banho do namorado até um banal autorretrato, lavando louça de topless, o erotismo de seus trabalhos é feito por meio de insinuações, captura de detalhes e muita, mas muita espontaneidade. Nada é realmente explícito, embora haja nudez na maioria das vezes. Muitos desses instantâneos têm um quê de voyeurismo, como se alguém espiasse pelo buraco da fechadura a intimidade da própria autora e de seus companheiros.

Trabalhando ora num belo preto-e-branco (adoro!), ora em cores, as fotos aproveitam ao máximo a luz natural, o que resulta em imagens fantásticas, com sombras duras ou, em alguns casos, pequena profundidade de campo ou superexposição (as cores sugerem que Lina usa e abusa de filtros vintage). É como um "diário da sensualidade", frisando ângulos aos quais raramente prestamos atenção: um ombro, um pé, uma axila sendo lavada, a expressão lânguida e ao mesmo tempo enlevada do amante durante o orgasmo...

Esses cliques chamaram tanta atenção que Lina Scheynius terá sua primeira exposição individual na Christophe Guye Galerie, em Zurique, a partir do próximo dia 30. Chega de blábláblá e confiram mais um pouco do trabalho dessa fantástica e promissora artista contemporânea:












Fotos: reprodução